CANNES 2002

"JAPÓN", UM DEPURADO EXERCÍCIO DE SENSIBILIDADE

"Japón", do estreante mexicano Carlos Reygadas, é uma das sensações cinematográficas do ano. Este filme estranho, com inesperados planos em lente scope, foi um dos mais comentados em Cannes 2002, na seção paralela 'Quinzena dos Realizadores'. Também em janeiro, no Festival de Roterdã, na Holanda, onde se apresentou em uma versão menos apurada.

Goste-se dele ou não, é inegável que estamos diante de um fenômeno estesiogênico, um depurado exercício de sensibilidade. O filme acompanha com precisão o percurso niilista de um personagem que arquiteta o seu próprio corredor da morte. Viaja pelo seu tempo interior em busca da ausência do tempo, refugiando-se cada vez mais no interior de um país e numa geografia bela e inóspita.

As paisagens de "Japón" são do estado de Hidalgo, a 200 quilômetros da Cidade do México. A inspiração de Reygadas vem dos filmes russos do mestre Andrei Tarkovski. O título evocativo ao Japão é apenas um convite à dispersão e para uma viagem inesperada que pode ter distintos níveis de interpretação. "Como Terry Gilliam fez ao chamar um de seus filmes de Brazil", diz o diretor mexicano.

Carlos Reygadas nasce para o cinema quando, aos 16 anos, descobre por acaso o cinema de Tarkovski e um novo meio de expressão. Mas segue estudando direito internacional e defende tese sobre a ONU e seu Conselho de Segurança pela paz mundial. Ao formar-se com 23 anos vai a Londres para estudar a gênese dos conflitos armados e das cortes internacionais do direito penal. A crise com os estudos de direito vem quando tudo parece estar preparado para uma brilhante carreira diplomática. O jovem advogado resolve que o que busca pode estar no cinema e vai estudá-lo no Insaas de Bruxelas. Escreve o roteiro de "Japón" entre setembro de 1999 e fevereiro de 2000. O filme é realizado por pouquíssimos recursos financeiros e a participação de quase todos os membros de sua família e amigos, como atores, técnicos e figurantes.

O neo-existencialismo de "Japón" deixa suas marcas ao longo desta inusitada experiência sensorial. O homem que viaja para por fim à sua vida, encontra o seu fim-de-mundo no casebre de uma velha índia viúva. É neste convívio que descobre seu humanismo, e sexualidade. O fim que tanto queria acaba não se resumindo a um fim. O despojamento do cinema iraniano, quem diria, ecoa no México.

(04/06/2002) Jornal da Mostra nº 102

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra

Leia mais no Jornal da Mostra >>

CANNES 2002

"JAPÓN", A DEPURATE SENSITIVITY EXERCISE

"Japón", is the feature debut by the Mexican Carlos Reygadas, one of this year's cinematographic sensations. This weird film, bringing unexpected scope plans, was one of the most commented in Cannes 2002, in the parallel section 'Director's Fortnight'. As well as it was in January, during the Rotterdam Festival, in Holland, where it was presented in a less refined version.

Whether we like it or not, it can't be denied that we are facing a perceptional phenomenon, a depurate sensitivity exercise. The film follows with precision the nihilist journey of a character who conceives his own death row. It travels in his inner time searching for the absence of time, taking refuge in the hinterlands of a country and in a beautiful and barren geography.

The landscapes in "Japón" are the Hidalgo state, 200 kilometers from Mexico City. Reygadas' inspiration comes from the Russian films by the master Andrei Tarkovski. The title evoking Japan is just an invitation to dispersion and to an unexpected trip that might have distinct interpretation levels. "Like Terry Gilliam did by naming one of his films Brazil", says the Mexican director.

Carlos Reygadas was born to the movies when at the age of 16, he discovers by chance Tarkovski's cinema and a new way of expression. But he keeps on studying international law and writes his thesis on the UN and its Security Council for world peace. Graduated at 23, he goes to London to study the genesis of armed conflicts and the international penal law courts. Crisis with law studies comes when everything seems to be prepared for a brilliant diplomatic career. The young lawyer decides that what he is looking for might be in the movies and starts studying it at the Insaas, in Brussels. He writes the script for "Japón" between September 1999 and February 2000. The film is made with very little resources and the participation of almost all members of his family and friends, as actors, technicians and extras.

The neo-existentialism in "Japón" leaves its prints along this unusual sensorial experience. The man, who travels to put an end to his life, finds his end-of-the-world in the hut of an old widow Indian woman. It is in this relationship that he finds his humanism, his sexuality. The end he wanted so much turns out not to be just an end. The Iranian cinema's detachment, who could tell, echoes in Mexico.

Leon Cakoff, for 'Jornal da Mostra'

Read more at Jornal Mostra >>