CANNES 2002

O ESPELHO DE YOSHIDA REVELA AS MULHERES DE HIROSHIMA

"Mulheres no Espelho/ Women in the Mirror" (Kagami no Onnatachi), é o novo filme de Kiju Yoshida, depois de 13 anos sem rodar um longa. Yoshida é um dos diretores monumentais do cinema japonês, com uma filmografia de poucos filmes, porém fundamentais para a psique japonesa. "Mulheres no Espelho", co-produzido pelo francês Philippe Jacquier, teve projeção especial no 55° Festival de Cannes onde encantou as platéias e foi pivô de um mal-estar provocado pelo jornal 'Libération', onde um crítico que ignorava a importância do autor, deixou a projeção antes do fim e escreveu um pequeno artigo desrespeitoso ao filme. Dois dias depois o mesmo jornal retratou-se com um novo artigo, dessa vez sim, rasgando elogios a Yoshida e seu novo trabalho.

"Mulheres no Espelho" trata da mais profunda dor japonesa, calada desde a rendição na Segunda Guerra Mundial e as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. "Como um japonês que sobreviveu ao período", diz Yoshida, "sempre pensei que tinha obrigação de levar ao cinema uma versão distinta sobre esta tragédia." A fórmula cinematográfica é genial.

Trabalha o nível da memória e da dor através de três gerações de mulheres. A mais idosa, interpretada pela grande atriz japonesa Mariko Okada, mulher do diretor, (ambos na foto) faz uma avó que vive em paz com a neta até o dia que lhes chega a notícia do encontro de sua filha desaparecida há 24 anos, logo depois de ter a filha que também abandonou. A filha que retorna está amnésica. Apenas uma palavra tem ressonância em sua memória: Hiroshima.

Para reconstruir a história as três mulheres partem para Hiroshima, onde o filme revela muito mais do que um drama familiar. Perguntou-se a Yoshida, 69 anos, se este seria um filme em homenagem às mulheres. Eis a sua resposta, distribuída no material de imprensa do filme:

"Na medida em que avanço na idade e começo a sentir os limites da minha vida, é certo que com a chegada de um novo século eu fique com vontade de refletir sobre o tempo em que vivi. O século 20 conheceu duas guerras mundiais que podemos simbolizar com o holocausto e a bomba atômica. Enquanto japonês eu logo penso na bomba atômica. Mais distanciado, penso que a guerra é um crime perpetrado pela humanidade. Ou que o século 20 foi sustentado pelas mulheres, que elas não queriam as guerras. Sem falar de mulheres, é impossível representar o século passado. Assim sendo, é mais do que natural que eu construa a minha narrativa em torno das mulheres."

Kiju Yoshida será jurado da 26a Mostra BR de Cinema em São Paulo - Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Seus filmes mais conhecidos são "História Escrita com Água", de 1965 e "Eros + Massacre", de 1969. Yoshida também é autor do livro "O Anarquismo da Visão". A programação da 26a Mostra terá seu novo filme em comparação com alguns de seus clássicos.

(06/06/2002) Jornal da Mostra nº 103

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra

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