"Mulheres
no Espelho/ Women in the Mirror" (Kagami no Onnatachi), é
o novo filme de Kiju Yoshida, depois de 13 anos sem rodar um longa.
Yoshida é um dos diretores monumentais do cinema japonês,
com uma filmografia de poucos filmes, porém fundamentais
para a psique japonesa. "Mulheres no Espelho", co-produzido
pelo francês Philippe Jacquier, teve projeção
especial no 55° Festival de Cannes onde encantou as platéias
e foi pivô de um mal-estar provocado pelo jornal 'Libération',
onde um crítico que ignorava a importância do autor,
deixou a projeção antes do fim e escreveu um pequeno
artigo desrespeitoso ao filme. Dois dias depois o mesmo jornal
retratou-se com um novo artigo, dessa vez sim, rasgando elogios
a Yoshida e seu novo trabalho.
"Mulheres no Espelho" trata da mais profunda dor japonesa,
calada desde a rendição na Segunda Guerra Mundial
e as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. "Como
um japonês que sobreviveu ao período", diz Yoshida,
"sempre pensei que tinha obrigação de levar
ao cinema uma versão distinta sobre esta tragédia."
A fórmula cinematográfica é genial.
Trabalha o nível da memória e da dor através
de três gerações de mulheres. A mais idosa,
interpretada pela grande atriz japonesa Mariko Okada, mulher do
diretor, (ambos na foto) faz uma avó que vive em paz com
a neta até o dia que lhes chega a notícia do encontro
de sua filha desaparecida há 24 anos, logo depois de ter
a filha que também abandonou. A filha que retorna está
amnésica. Apenas uma palavra tem ressonância em sua
memória: Hiroshima.
Para reconstruir a história as três mulheres partem
para Hiroshima, onde o filme revela muito mais do que um drama
familiar. Perguntou-se a Yoshida, 69 anos, se este seria um filme
em homenagem às mulheres. Eis a sua resposta, distribuída
no material de imprensa do filme:
"Na medida em que avanço na idade e começo
a sentir os limites da minha vida, é certo que com a chegada
de um novo século eu fique com vontade de refletir sobre
o tempo em que vivi. O século 20 conheceu duas guerras
mundiais que podemos simbolizar com o holocausto e a bomba atômica.
Enquanto japonês eu logo penso na bomba atômica. Mais
distanciado, penso que a guerra é um crime perpetrado pela
humanidade. Ou que o século 20 foi sustentado pelas mulheres,
que elas não queriam as guerras. Sem falar de mulheres,
é impossível representar o século passado.
Assim sendo, é mais do que natural que eu construa a minha
narrativa em torno das mulheres."
Kiju Yoshida será jurado da 26a Mostra BR de Cinema em
São Paulo - Mostra Internacional de Cinema em São
Paulo. Seus filmes mais conhecidos são "História
Escrita com Água", de 1965 e "Eros + Massacre",
de 1969. Yoshida também é autor do livro "O
Anarquismo da Visão". A programação
da 26a Mostra terá seu novo filme em comparação
com alguns de seus clássicos.