CANNES 2002

DAVID CRONENBERG: "A ARANHA SOU EU!"

"Spider/ Aranha", o novo filme do canadense David Cronenberg, revelado na competição do 55o Festival de Cannes, não tem nada a ver com o atual sucesso internacional de "O Homem-Aranha", de Sam Raimi. Está mais para Jack, o Estripador e o bas-fonds londrino. As teias de aranha de Cronenberg são tecidas em um labirinto de traumas criado por uma criança que observa até os seus 12 a conduta de um pai devasso e que passa 20 anos internado em um hospital psiquiátrico. Cronenberg é um especialista no cinema dessa complicada arquitetura de enfermidades da mente. Seus filmes fazem transparecer o que não se costuma enxergar a olho nu.

O presidente do júri, David Lynch, outro especialista de sensações ocultas, perdeu uma oportunidade histórica de contemplar o seu par. "Spider" saiu de Cannes sem premiações. Mas isto é de menos para a carreira de David Cronenberg. Seus filmes têm legiões de seguidores sempre excitados com as novas aventuras que, mais do que uma filmografia, formam uma nomenclatura no cinema, a nomenclatura cronenberguiana, como o italiano Federico Fellini conseguir transformar os seus personagens (fellinianos) em adjetivos de um vasto universo de delírios e sensações.

O universo paralelo construído em "Spider" é um jogo sem retorno de psicose e esquizofrenia. Para os cronenberguianos este é o jogo que interessa. Cronenberg diz que "o universo mental do seu personagem, o mergulho na mente de um psicopata, permite que o espectador venha a ser co-realizador do filme, montador, roteirista e até ator. E concluir o filme com seus próprios julgamentos, ao contrário de outros que apresentam uma história com a estrutura de um bloco de concreto."

"A criação desta atmosfera", lembra Cronenberg, "pede uma atenção especial aos trabalhos de seus colaboradores Peter Suschitzky (na iluminação sombria) e Howard Shore" (no clima musical que cerca a claustrofobia). O diretor exalta ainda o fato do escritor Patrick McGrath ter feito pessoalmente a adaptação do seu livro para o roteiro do filme.

O elenco encabeçado por Ralph Fiennes tem Miranda Richardson, Gabriel Byrne, John Neville e Bradley Hall. Sua afinidade com Fiennes começou "num desses raros momentos do cinema em que um agente oferece um projeto para um diretor já com a certeza de quem será o ator", confessa Cronenberg. A certa altura do laboratório da produção, Cronenberg teria chegado à seguinte conclusão, em suas conversas com o ator:

"A aranha do filme sou eu", parafraseando (Gustave) Flaubert a respeito de sua "Madame Bovary". "É porque, aos meus olhos, Spider não é um personagem nem patético e nem psicótico. Ao contrário, é muito humano, muito universal, mesmo que a sua história pessoal não o seja. É um personagem que se reinventa e recomeça do zero. Isto nos fascinou a todos".

DOS LEITORES


Leio sempre o 'Jornal da Mostra' por considerar importante estar sempre
atualizado com relação ao mundo do cinema. Mas devo confessar que sofro,
praticamente todas as vezes, com a qualidade do texto de vocês. Quando não é
muito mal escrito, é muito pedante. Sejam mais imparciais, mais técnicos, usem
menos adjetivos. Assim, dá para entender porque a crítica brasileira é tão ruim.
Jefferson Peixoto

Ao pessoal do 'Jornal da Mostra',
Parabéns pelo alto nível de qualidade e informações do 'Jornal da Mostra'.
Com o Jornal, fico sempre atualizada sobre o que está acontecendo no mundo
do cinema. Mesmo morando na Inglaterra há 4 meses e com milhares de fontes
de informações e criticas sobre cinema, o 'Jornal da Mostra' ainda é o meu
preferido.
Abraços,
Cristiana Martins
PhD student/ University of Essex


(07/06/2002) Jornal da Mostra nº 104

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra

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DAVID CRONENBERG: "I AM THE SPIDER!"

"Spider", the new film by the Canadian David Cronenberg, revealed by the 55th Cannes Festival competition, has nothing to do with the recent international success of "Spiderman", by Sam Raimi. It is closer to Jack, the Stripper and the London bas-fonds. Cronenberg's webs are interwoven in a labyrinth of traumas created by a child who observes up to his 12 a libertine father's behavior and spends 20 years as an intern in a psychiatric hospital. Cronenberg is an expert in this complicated architecture of mind illnesses in the cinema. His films bring to surface what usually cannot be seen with naked eyes.

The president of the jury, David Lynch, another expert in hidden sensations, missed a historical opportunity to celebrate his pair. "Spider" left Cannes without any awards. But this is not a big deal for David Cronenberg's career. His films have legions of followers always excited with the new adventures that, more than a filmography, build a nomenclature in cinema, the cronenbergian nomenclature, just like the Italian Federico Fellini managed to transform his (fellinian) characters into adjectives of a wide universe of delirium and sensation.

The parallel universe built in "Spider" is a no-return game of psychosis and schizophrenia. For the cronenbergians this is the game that counts. Cronenberg says that "the mental universe of his character, the plunge into the mind of a psychopath, allows the viewer to become a co-maker, editor, script writer and even actor of the film, as well as to conclude the film with his own judgments, different for others that present a story with the structure of a concrete block."

"Creating this atmosphere", reminds Cronenberg, "requires special attention to the work of his collaborators Peter Suschitzky (in the shadowy lighting) and Howard Shore" (in the musical atmosphere that surrounds claustrophobia). The director magnifies also the fact of the writer Patrick McGrath personally adapted his book for the film script.

The cast headed by Ralph Fiennes brings Miranda Richardson, Gabriel Byrne, John Neville and Bradley Hall. His affinity to Fiennes started "at one of these rare moments in the movies when an agent offers a project to a director being sure of whom the actor will be", confesses Cronenberg. At a certain point of the production laboratory, Cronenberg would have come to the following conclusion, in his talks to the actor:

"The spider in the movie is me", paraphrasing (Gustave) Flaubert about his "Madame Bovary". "It is so because, as I see it, Spider isn't a neither pathetic nor psychotic character. He is very human, very universal, even if his personal history is not. He is a character who reinvents himself and restarts from the beginning. This has fascinated us all".

FROM THE READERS


I always read 'Jornal da Mostra' because I consider it important to be always informed about the cinema world. But I should confess that I suffer, practically every time, with the quality of your text. When it is not badly written, it is very arrogant. Be more impartial, use fewer adjectives. Thus we understand why Brazilian critic is so bad.
Jefferson Peixoto

To the staff at 'Jornal da Mostra',
Congratulations for the high quality and information level at 'Jornal da Mostra'. It keeps me always up to date with what is going on in the cinema world. Even though I have been living in England for 4 months and having thousands of information sources and critics on cinema, 'Jornal da Mostra' is still my favorite.
Cristiana Martins
PhD student/ University of Essex