"Spider/
Aranha", o novo filme do canadense David Cronenberg, revelado
na competição do 55o Festival de Cannes, não
tem nada a ver com o atual sucesso internacional de "O Homem-Aranha",
de Sam Raimi. Está mais para Jack, o Estripador e o bas-fonds
londrino. As teias de aranha de Cronenberg são tecidas
em um labirinto de traumas criado por uma criança que observa
até os seus 12 a conduta de um pai devasso e que passa
20 anos internado em um hospital psiquiátrico. Cronenberg
é um especialista no cinema dessa complicada arquitetura
de enfermidades da mente. Seus filmes fazem transparecer o que
não se costuma enxergar a olho nu.
O
presidente do júri, David Lynch, outro especialista de
sensações ocultas, perdeu uma oportunidade histórica
de contemplar o seu par. "Spider" saiu de Cannes sem
premiações. Mas isto é de menos para a carreira
de David Cronenberg. Seus filmes têm legiões de seguidores
sempre excitados com as novas aventuras que, mais do que uma filmografia,
formam uma nomenclatura no cinema, a nomenclatura cronenberguiana,
como o italiano Federico Fellini conseguir transformar os seus
personagens (fellinianos) em adjetivos de um vasto universo de
delírios e sensações.
O
universo paralelo construído em "Spider" é
um jogo sem retorno de psicose e esquizofrenia. Para os cronenberguianos
este é o jogo que interessa. Cronenberg diz que "o
universo mental do seu personagem, o mergulho na mente de um psicopata,
permite que o espectador venha a ser co-realizador do filme, montador,
roteirista e até ator. E concluir o filme com seus próprios
julgamentos, ao contrário de outros que apresentam uma
história com a estrutura de um bloco de concreto."
"A
criação desta atmosfera", lembra Cronenberg,
"pede uma atenção especial aos trabalhos de
seus colaboradores Peter Suschitzky (na iluminação
sombria) e Howard Shore" (no clima musical que cerca a claustrofobia).
O diretor exalta ainda o fato do escritor Patrick McGrath ter
feito pessoalmente a adaptação do seu livro para
o roteiro do filme.
O
elenco encabeçado por Ralph Fiennes tem Miranda Richardson,
Gabriel Byrne, John Neville e Bradley Hall. Sua afinidade com
Fiennes começou "num desses raros momentos do cinema
em que um agente oferece um projeto para um diretor já
com a certeza de quem será o ator", confessa Cronenberg.
A certa altura do laboratório da produção,
Cronenberg teria chegado à seguinte conclusão, em
suas conversas com o ator:
"A
aranha do filme sou eu", parafraseando (Gustave) Flaubert
a respeito de sua "Madame Bovary". "É porque,
aos meus olhos, Spider não é um personagem nem patético
e nem psicótico. Ao contrário, é muito humano,
muito universal, mesmo que a sua história pessoal não
o seja. É um personagem que se reinventa e recomeça
do zero. Isto nos fascinou a todos".
DOS
LEITORES
Leio sempre o 'Jornal da Mostra' por considerar importante estar
sempre
atualizado com relação ao mundo do cinema. Mas devo
confessar que sofro,
praticamente todas as vezes, com a qualidade do texto de vocês.
Quando não é
muito mal escrito, é muito pedante. Sejam mais imparciais,
mais técnicos, usem
menos adjetivos. Assim, dá para entender porque a crítica
brasileira é tão ruim.
Jefferson Peixoto
Ao
pessoal do 'Jornal da Mostra',
Parabéns pelo alto nível de qualidade e informações
do 'Jornal da Mostra'.
Com o Jornal, fico sempre atualizada sobre o que está acontecendo
no mundo
do cinema. Mesmo morando na Inglaterra há 4 meses e com
milhares de fontes
de informações e criticas sobre cinema, o 'Jornal
da Mostra' ainda é o meu
preferido.
Abraços,
Cristiana
Martins
PhD
student/ University of Essex
(07/06/2002) Jornal da Mostra nº 104
Leon
Cakoff, para o Jornal
da Mostra
Leia
mais no Jornal da Mostra >>
DAVID
CRONENBERG: "I AM THE SPIDER!"
"Spider",
the new film by the Canadian David Cronenberg, revealed by
the 55th Cannes Festival competition, has nothing to do with
the recent international success of "Spiderman",
by Sam Raimi. It is closer to Jack, the Stripper and the London
bas-fonds. Cronenberg's webs are interwoven in a labyrinth
of traumas created by a child who observes up to his 12 a
libertine father's behavior and spends 20 years as an intern
in a psychiatric hospital. Cronenberg is an expert in this
complicated architecture of mind illnesses in the cinema.
His films bring to surface what usually cannot be seen with
naked eyes.
The
president of the jury, David Lynch, another expert in hidden
sensations, missed a historical opportunity to celebrate his
pair. "Spider" left Cannes without any awards. But
this is not a big deal for David Cronenberg's career. His
films have legions of followers always excited with the new
adventures that, more than a filmography, build a nomenclature
in cinema, the cronenbergian nomenclature, just like the Italian
Federico Fellini managed to transform his (fellinian) characters
into adjectives of a wide universe of delirium and sensation.
The
parallel universe built in "Spider" is a no-return
game of psychosis and schizophrenia. For the cronenbergians
this is the game that counts. Cronenberg says that "the
mental universe of his character, the plunge into the mind
of a psychopath, allows the viewer to become a co-maker, editor,
script writer and even actor of the film, as well as to conclude
the film with his own judgments, different for others that
present a story with the structure of a concrete block."
"Creating
this atmosphere", reminds Cronenberg, "requires
special attention to the work of his collaborators Peter Suschitzky
(in the shadowy lighting) and Howard Shore" (in the musical
atmosphere that surrounds claustrophobia). The director magnifies
also the fact of the writer Patrick McGrath personally adapted
his book for the film script.
The
cast headed by Ralph Fiennes brings Miranda Richardson, Gabriel
Byrne, John Neville and Bradley Hall. His affinity to Fiennes
started "at one of these rare moments in the movies when
an agent offers a project to a director being sure of whom
the actor will be", confesses Cronenberg. At a certain
point of the production laboratory, Cronenberg would have
come to the following conclusion, in his talks to the actor:
"The
spider in the movie is me", paraphrasing (Gustave) Flaubert
about his "Madame Bovary". "It is so because,
as I see it, Spider isn't a neither pathetic nor psychotic
character. He is very human, very universal, even if his personal
history is not. He is a character who reinvents himself and
restarts from the beginning. This has fascinated us all".
FROM
THE READERS
I always read 'Jornal da Mostra' because I consider it important
to be always informed about the cinema world. But I should
confess that I suffer, practically every time, with the quality
of your text. When it is not badly written, it is very arrogant.
Be more impartial, use fewer adjectives. Thus we understand
why Brazilian critic is so bad.
Jefferson Peixoto
To
the staff at 'Jornal da Mostra',
Congratulations for the high quality and information level
at 'Jornal da Mostra'. It keeps me always up to date with
what is going on in the cinema world. Even though I have been
living in England for 4 months and having thousands of information
sources and critics on cinema, 'Jornal da Mostra' is still
my favorite.
Cristiana Martins
PhD student/ University of Essex