CANNES 2002

ABBAS KIAROSTAMI: DIRIGIR UM FILME É COMO TREINAR UM TIME DE FUTEBOL

Cada vez mais minimalista, o grande poeta entre os cineastas, o iraniano Abbas Kiarostami, teve a estréia de seu novo filme 'Dez/ Ten' (foto) no 55° Festival de Cannes. Como em uma deliciosa lição de cinema, que prega todo o despojamento, ele fala de 'Dez' citando o escritor tcheco Milan Kundera e relata uma experiência que teve em um seminário em Beirute, no Líbano, para estudantes e futuros cineastas. 'Dez', mais um 'road-movie' do cineasta pregador de humanismo, apresenta em dez seqüências o relato desesperado de seis mulheres oprimidas sob o atual regime teocrático iraniano. Simbolicamente Kiarostami oferece-nos uma lição de cinema com uma mulher (dirigindo) ao volante.

A mesma linha minimalista é a base do filme anterior de Kiarostami, 'ABC África', rodado em Kampala, na Uganda, com crianças órfãs e vítimas diretas do flagelo da AIDS, atualmente em exibição no Unibanco Arteplex de São Paulo. O que se acompanha no cinema de Kiarostami é um processo de despojamento gradual dos recursos que envolvem a realização de um filme. 'ABC África' foi rodado com duas mini-câmeras digitais, dessas de turistas. O seu cinema parece estar no curso de um despojamento franciscano.

A ação de 'Dez' se passa novamente no curso de um carro, desta vez em meio à agitação urbana de Teerã. O primeiro diálogo ríspido e já machista é de um menino de dez anos com a sua mãe psicanalista e divorciada. Os demais formam o variado universo social feminino, da burguesa emancipada à prostituta recorrente.

A seguir, o relato de Kiarostami sobre esta sua nova experiência:

'Às vezes eu me digo que Dez é um filme que eu não poderei mais repetir. Lembra um pouco 'Close-up'. É possível continuar nesta linha, mas é preciso ter muita paciência. De fato, não se trata de uma coisa que se repete facilmente. Ela deve se sobressair como um incidente, um happening... Ao mesmo tempo, é preciso uma longa preparação. Em primeiro lugar, trata-se da história de uma psicanalista, seus pacientes e seu carro, mas isso foi há dois anos...'

'Há uma semana, fui convidado para um seminário em Beirute, com estudantes de cinema. Um deles me disse: Só você pode fazer um filme assim graças à sua fama. Se fosse a gente que o tivesse feito, ninguém o aceitaria. Eu lhe respondi que, como o seu professor, eu deveria dizer a verdade: Fazer qualquer coisa simples necessita de uma boa dose de experiência. E que, primeiramente, é preciso entender que simplicidade não é sinônimo de facilidade.'

'Kundera conta uma anedota que realmente me impressionou: ele fala que o léxico de seu pai havia diminuído com a idade e que ao final da vida se limitava a nada mais do que duas palavras: é estranho! é estranho! Evidentemente ele não havia chegado a esse ponto porque não tinha mais grande coisa para dizer, mas sim porque essas duas palavras resumiam efetivamente toda a experiência de sua vida. Eram a essência de uma vida. Talvez seja também essa a história do minimalismo.'

'O desaparecimento da direção. Aí está do que se trata. O abandono de todos os elementos indispensáveis para o cinema corrente. E eu digo com muita prudência que a direção, no senso corrente do termo, pode desaparecer no decurso desse processo. O diretor de cinema lembra muito um treinador de futebol. Ele deve fazer o essencial do seu trabalho antes de começar a realização do jogo. Para mim também o filme começa sempre bem antes dos primeiros preparativos e não se encerra praticamente jamais. É um jogo perpétuo, cada vez que eu o mostro, eu vejo as reações e a cada vez as discussões que seguem as exibições tomam um novo rumo. Toda a beleza da arte, para mim, se resume nas reações que provocam.'

'Este filme, para mim, é um filme de duas palavras. Que resume praticamente tudo. E eu digo praticamente porque eu já penso em meu próximo filme. Um filme, talvez, de uma única palavra.'


DOS LEITORES:

Imparcialidade?!?!
O que é isso? Faço minhas as palavras de Ron Norman no 'Jornal da Mostra' nº 105. Não vejo nenhum problema com o texto do jornal! Se a imprensa brasileira fosse mais transparente em suas opiniões estaríamos muito melhor informados!
Nivaldo B.C.

Creio que a grande maioria que recebe o 'Jornal da Mostra' concorda com Ron Norman. Jefferson Peixoto devia estar nos seus maus dias quando escreveu a carta de ontem ('Jornal da Mostra' n° 104).
Borges de Garuva

Sobre o 11 de Setembro ('Jornal da Mostra' n° 105)
Não sei se um desses diretores aborda a responsabilidade do povo americano, onde menos de 30% da população votam e elegem governantes como Bush e insistem com o partido Republicano (leia-se extrema direita) invadem países, cometem atrocidades, só pensam em guerra, guerra. Um povo que ama tanto seu país, conforma-se com as injustiças, justificando ser o império. Não vivemos na Roma Antiga, mas até que ponto, são tão diferentes? Jovens de países ricos afundados nas drogas, sendo copiados pelo 3° Mundo! É o início da decadência interna? Um povo admirável, mas totalmente cego.
Etelvina Massuda

 

(12/06/2002) Jornal da Mostra nº 106

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra

Leia mais no Jornal da Mostra >>      Read more at Jornal Mostra >>