Cada
vez mais minimalista, o grande poeta entre os cineastas,
o iraniano Abbas Kiarostami, teve a estréia de seu
novo filme 'Dez/ Ten' (foto) no 55° Festival de Cannes.
Como em uma deliciosa lição de cinema, que
prega todo o despojamento, ele fala de 'Dez' citando o escritor
tcheco Milan Kundera e relata uma experiência que
teve em um seminário em Beirute, no Líbano,
para estudantes e futuros cineastas. 'Dez', mais um 'road-movie'
do cineasta pregador de humanismo, apresenta em dez seqüências
o relato desesperado de seis mulheres oprimidas sob o atual
regime teocrático iraniano. Simbolicamente Kiarostami
oferece-nos uma lição de cinema com uma mulher
(dirigindo) ao volante.
A
mesma linha minimalista é a base do filme anterior
de Kiarostami, 'ABC África', rodado em Kampala, na
Uganda, com crianças órfãs e vítimas
diretas do flagelo da AIDS, atualmente em exibição
no Unibanco Arteplex de São Paulo. O que se acompanha
no cinema de Kiarostami é um processo de despojamento
gradual dos recursos que envolvem a realização
de um filme. 'ABC África' foi rodado com duas mini-câmeras
digitais, dessas de turistas. O seu cinema parece estar
no curso de um despojamento franciscano.
A
ação de 'Dez' se passa novamente no curso
de um carro, desta vez em meio à agitação
urbana de Teerã. O primeiro diálogo ríspido
e já machista é de um menino de dez anos com
a sua mãe psicanalista e divorciada. Os demais formam
o variado universo social feminino, da burguesa emancipada
à prostituta recorrente.
A
seguir, o relato de Kiarostami sobre esta sua nova experiência:
'Às
vezes eu me digo que Dez é um filme que eu não
poderei mais repetir. Lembra um pouco 'Close-up'. É
possível continuar nesta linha, mas é preciso
ter muita paciência. De fato, não se trata
de uma coisa que se repete facilmente. Ela deve se sobressair
como um incidente, um happening... Ao mesmo tempo, é
preciso uma longa preparação. Em primeiro
lugar, trata-se da história de uma psicanalista,
seus pacientes e seu carro, mas isso foi há dois
anos...'
'Há
uma semana, fui convidado para um seminário em Beirute,
com estudantes de cinema. Um deles me disse: Só você
pode fazer um filme assim graças à sua fama.
Se fosse a gente que o tivesse feito, ninguém o aceitaria.
Eu lhe respondi que, como o seu professor, eu deveria dizer
a verdade: Fazer qualquer coisa simples necessita de uma
boa dose de experiência. E que, primeiramente, é
preciso entender que simplicidade não é sinônimo
de facilidade.'
'Kundera
conta uma anedota que realmente me impressionou: ele fala
que o léxico de seu pai havia diminuído com
a idade e que ao final da vida se limitava a nada mais do
que duas palavras: é estranho! é estranho!
Evidentemente ele não havia chegado a esse ponto
porque não tinha mais grande coisa para dizer, mas
sim porque essas duas palavras resumiam efetivamente toda
a experiência de sua vida. Eram a essência de
uma vida. Talvez seja também essa a história
do minimalismo.'
'O
desaparecimento da direção. Aí está
do que se trata. O abandono de todos os elementos indispensáveis
para o cinema corrente. E eu digo com muita prudência
que a direção, no senso corrente do termo,
pode desaparecer no decurso desse processo. O diretor de
cinema lembra muito um treinador de futebol. Ele deve fazer
o essencial do seu trabalho antes de começar a realização
do jogo. Para mim também o filme começa sempre
bem antes dos primeiros preparativos e não se encerra
praticamente jamais. É um jogo perpétuo, cada
vez que eu o mostro, eu vejo as reações e
a cada vez as discussões que seguem as exibições
tomam um novo rumo. Toda a beleza da arte, para mim, se
resume nas reações que provocam.'
'Este
filme, para mim, é um filme de duas palavras. Que
resume praticamente tudo. E eu digo praticamente porque
eu já penso em meu próximo filme. Um filme,
talvez, de uma única palavra.'
DOS
LEITORES:
Imparcialidade?!?!
O que é isso? Faço minhas as palavras de Ron
Norman no 'Jornal da Mostra' nº 105. Não vejo
nenhum problema com o texto do jornal! Se a imprensa brasileira
fosse mais transparente em suas opiniões estaríamos
muito melhor informados!
Nivaldo B.C.
Creio
que a grande maioria que recebe o 'Jornal da Mostra' concorda
com Ron Norman. Jefferson Peixoto devia estar nos seus maus
dias quando escreveu a carta de ontem ('Jornal da Mostra'
n° 104).
Borges de Garuva
Sobre
o 11 de Setembro ('Jornal da Mostra' n° 105)
Não
sei se um desses diretores aborda a responsabilidade do
povo americano, onde menos de 30% da população
votam e elegem governantes como Bush e insistem com o partido
Republicano (leia-se extrema direita) invadem países,
cometem atrocidades, só pensam em guerra, guerra.
Um povo que ama tanto seu país, conforma-se com as
injustiças, justificando ser o império. Não
vivemos na Roma Antiga, mas até que ponto, são
tão diferentes? Jovens de países ricos afundados
nas drogas, sendo copiados pelo 3° Mundo! É o
início da decadência interna? Um povo admirável,
mas totalmente cego.
Etelvina Massuda