CANNES 2002

CURTAS DE GRIFE BRINCAM SOBRE A RELATIVIDADE DO TEMPO

A nova onda dos filmes em episódios prossegue com "Ten Minutes Older/ Dez Minutos Mais Velho", uma produção alemã da Road Movies de Wim Wenders em parceria com o seu tradicional produtor Ulrich Felsberg. Instrumentos musicais irão dar a diferença de cada um dos três longas previstos no projeto. O primeiro da série é "Ten Minutes Older - The Trumpet" e foi apresentado em sessões concorridas no 55o Festival de Cannes na seleção 'Un Certain Regard'.

Sete diretores famosos assinam a coletânea "Trumpet": Aki Kaurismäki ("Dogs Have no Hell"), Victor Erice ("Lifetime"), Werner Herzog ("Ten Thousand Years Older"), Jim Jarmusch ("Int. Trailer. Night"), Wim Wenders ("Twelve Miles to Trona"), Spike Lee ("We Wuz Robbed") e Chen Kaige ("100 Flowers Hidden Deep"). O segundo da série já tem o compromisso de outros seis renomados: Bernardo Bertolucci, Claire Denis, Mike Figgis, Jiri Menzel, Michael Radford e Istvan Szabo.

Para os diretores este é um raro exercício de controle de tempo. Ainda mais na atualidade do cinema em que são raros os longas com menos de duas horas de duração. Definido o limite dos dez minutos, e o tema sobre o tempo, Felsberg assegura que a liberdade de expressão foi total para cada um dos diretores.

Cada um no seu estilo, dois dos diretores de "Trumpet" aproveitam melhor esta oportunidade - o americano Spike Lee e o espanhol Victor Erice. Spike Lee faz de "We Wuz Robbed" ('Nois Fumu Robado') um libelo contra as últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, levantando provas de que a diferença no fuso horário entre o leste e o oeste do país permitiu um complô da mídia televisiva que cantou antes do tempo a vitória certa de Bush. Seu curta de depoimentos polemiza também sobre a decisão da Suprema Corte americana que votou pelo fim da recontagem dos votos sob suspeição.

Erice vai ao passado tenebroso do seu país, exatamente para o dia 28 de junho de 1940, a sexta-feira em que as tropas nazistas entraram na Espanha cruzando a fronteira da França. Seus dez minutos criam um suspense asfixiante com a câmera debruçada sobre um bebê recém-nascido que sangra na incisão do cordão umbilical.

Uma função e uma oportunidade melhor aproveitada por uns, desperdiçada por outros, mas fascinante para o público que envelhece apenas dez minutos vendo curtas-metragens de grife. Em seus exercícios de estilo vemos também como questões filosóficas têm implicações sobre a relatividade do tempo.

(17/06/2002) Jornal da Mostra nº 108

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra

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