O PRINCIPE

GUERRA DE ESTRELAS REVELA FRAGILIDADE CRÍTICA

Digo isso como um crítico que um dia se cansou de dizer o que pensava no papel e resolveu pôr em prática o que queria: liberdade de expressão e platéias para a discussão de idéias. Foi dessa inquietude que nasceu a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em 1977. Antes disso, os desafios do cineclubismo no auditório do Masp - Museu de Arte de São Paulo, nos anos de chumbo da ditadura militar. Um objetivo: estimular espectadores a ser condutores de idéias. Não das minhas, que seria maçante, mas dos tantos autores do cinema e seus ensinamentos.

Cioso com esta filosofia e estratégia de vida, fiquei remoendo até agora a minha indignação contra um artigo, de certo um atentado, assinado por Mario Sergio Conti na edição de 9/8/02 no caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo,com o título “Giorgetti cria trama frouxa com idéia banal”, onde repudia o lançamento do filme de Ugo Giorgetti “O Príncipe”. Foi a única voz dissonante na imprensa brasileira contra o cáustico cineasta, atento à degradação dos valores sociais contemporâneos. Pergunto-me primeiro a que se presta um veículo de circulação nacional como o jornal ‘Folha de S. Paulo’ dando espaço para um artigo tão irresponsável e desrespeitoso.

O próprio jornal ficou perdido ao longo da semana com que avaliação oficializar. O crítico temporão disse que “O Príncipe” era digno de apenas uma estrela (ruim) numa escala até quatro (excelente). Uma semana depois, Inácio Araújo, o crítico oficial do jornal, retomou o assunto, defendeu o filme de Giorgetti como este o merecia e atribuiu-lhe o estrelato máximo - com quatro estrelas. Mas não se sabe direito qual critério editorial foi adotado para que o mesmo filme acabasse sendo indicado para os leitores do mesmo jornal com duas estrelas - como produto médio.

Inácio Araújo cumpriu o seu papel de cinéfilo, atento ao respeito autoral, com a bagagem que tem como formador de platéias e difusor de idéias da história do cinema. Se o jornal queria polemizar, polêmica não houve, apenas indignação.

Este exemplo de crítica negativa é filha de uma escola de jornalismo impune por seus atos levianos e lesivos. É um equívoco pensar que não somos atingidos por ataques do tipo. Fica em nossas mentes o trauma da era Collor que se elegeu graças a reportagens irresponsáveis a seu favor na imprensa brasileira e jogou o país no caos, com escândalos de corrupção e desmandos delirantes.

Entre os tantos desmandos de Collor está a violenta operação desmanche do aparato da Embrafilme, como um ato vingativo contra a classe artística que não havia apoiada a sua candidatura. Bem ou mal, a Embrafilme representava a organização do cinema brasileiro, da produção, legislação, distribuição, difusão no exterior e outros controles necessários da burocracia. Foi um golpe mortal contra um segmento importante da cultura e da expressão nacional.

Jornalismo destrutivo em nada contribui para a diversidade e a tolerância. Bom e ruim fazem parte de um processo criativo e de sedimento cultural. Reprimir e ridicularizar o processo criativo deixa evidentes seqüelas. Mina a coragem de experimentar e se exprimir. Do lado das platéias, mina a identidade dos espectadores com a sua própria cultura e realidade. Será que a arquitetura da destruição de Collor continua obrando?

Continua! Com este modelo de jornalismo verde de indigesto. Giorgetti não faz firulas para tratar da sua matéria cinematográfica - a degradação urbana, a barbárie progressiva, chocante para um personagem ausente do país há 20 anos. Classes A e B são os mentores intelectuais dessa decadência, longe de se culpar os miseráveis pela desordem. A Vila Madalena, bairro classe média de São Paulo, está desfigurada pelo comércio noturno de bares e boemia. É no olho desse furacão que morou um dia o ‘estrangeiro’ de volta e só de passagem pela sua terra nativa.

O personagem dândi de Giorgetti é descrente e reticente. Ao contrário do que diz o crítico temporão, a idéia de “O Príncipe” não é surrada e nem foi vista dezenas de vezes no cinema. Pelo contrário. É a contracorrente dos clichês de todo o cinema americano que mais e melhor trabalha o tema emblemático da volta para casa. Por mais que doa no espectador, o personagem de Giorgetti não se concilia com o passado e nem volta para ficar.

(19/08/2002) Jornal da Mostra nº 128

Leon Cakoff, para o 'Jornal da Mostra'


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“THE PRINCE”

STARS WAR REVEALS CRITICS’ FRAGILITY

I say this as a critic who once got tired of writing down what he believed and decided to put into practice what he wanted: freedom of speech and audiences for the discussion of ideas. From this unsettledness São Paulo International Film Festival was created in 1977. Before this, the challenges of having a cineclub at Masp’s (São Paulo Museum of Art) auditorium, in the iron years of the military dictatorship. One goal: to stimulate spectators to be the conductors of ideas. Not mine, which would be boring, but of so many cinema authors and their teachings.

Concerned with this philosophy and life strategy, I have since then been grinding my resentment against an article, surely an attack, signed by Mario Sergio Conti, in Aug. 09, 2002 on the newspaper Folha de São Paulo, with the title “Giorgetti creates loose plot from a petty idea”, where he repudiates the release of Ugo Giorgetti’s film “The Prince”. It was the only disaccording voice in the Brazilian press against the caustic filmmaker, aware of the degradation of contemporary social values. I ask myself in the first place, what good does a national vehicle of communication such as the paper “Folha de São Paulo” giving space to such an irresponsible and disrespectful article.

The newspaper itself was lost during the week trying to decide which evaluation should be made official. The old-fashioned critic said that “The Prince” was worthy of only one star (bad) in a scale that goes up to four (excellent). One week later, Inácio Araújo, the official critic for the paper, took over the subject again, defended Giorgetti’s film as it deserved and granted it the maximum number of stars. But one doesn’t fully understand which editorial criterium was adopted so that the same film ended up being indicated to the readers of the same newspaper with two stars - as average.

Inácio Araújo fulfilled his role as a film lover, conscious of the respect towards the author, using the luggage he has as a creator of audiences and a diffuser of ideas about the history of cinema. If the paper wanted to be polemic, it failed, raising indignation only.

This example of negative review is the daughter of a journalism school never punished by its careless and harmful acts. It’s a mistake to think that we haven’t been hit by attacks of the sort. It remains in our minds the trauma of the Collor era, who was elected thanks to irresponsible reports in his favor by the Brazilian press, throwing the country into chaos, with scandals of corruption and delirious blunders.

Among Collor’s many blunders, there is the violent break-apart operation of Embrafilme’s structure, as a revengeful act against the artistic class who had not supported his candidature. Well or badly, Embrafilme represented the organization of Brazilian cinema, production, legislation, distribution, international diffusion and other necessary paperwork controls. It was the final blow against an important section of culture and national expression.

Destructive journalism cannot contribute for diversity and tolerance. Good and evil are part of creative process and cultural sedimentation. Repressing and making fun of the creation process leaves clear sequels. It mines the courage of trying and expressing. On the audience side, it mines the viewer’s identity with their own culture and reality. Is Collor’s architecture of doom still working?

It continues! With this indigestion-green journalism model. Giorgetti is straightforward when dealing with his subjects - urban degradation and progressive barbarism, both shocking for a character who was abroad for 20 years. A and B classes are the intellectual mentors of this decadence, far from blaming themselves for the chaos. Vila Madalena, a São Paulo middle class neighborhood, is unrecognizable with its night life of bars and bohemia. It is in the eye of this storm that once lived the ‘foreign’ that is back to his motherland only for a visit.

Giorgetti’s dandy character is unbelieving and reticent. Unlike the old fashioned critic said, the idea in “The Prince” is not beaten and has not been seen dozens of times in the movies. On the contrary. It goes upstream against clichés in American movies, which works more and more on the emblematic theme of returning home. As hard as it might hurt the viewer, Giorgetti’s character doesn’t conciliate with his past and is not back to stay.

Leon Cakoff, for 'Jornal da Mostra'





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