UM
FESTIVAL DE BOLSO COM O CHARME DA SERRA GAÚCHA
Terminou
domingo o 30° Festival de Gramado de cinema brasileiro e latino.
É graças a este festival que a serra gaúcha
(foto) ficou conhecida como uma opção nacional de
turismo. O festival impulsionou também a produção
cinematográfica do Rio Grande do Sul, consagrando internacionalmente
talentos como os do núcleo Casa de Cinema de Porto Alegre.
Nos anos de vacância do cinema brasileiro, provocados pela
crise do governo Collor, o festival tentou sobreviver abrindo
a sua seleção também para filmes produzidos
na vasta comunidade de língua latina.
Pode
se dizer que o festival também alimenta a sua vocação
masoquista, a de ser palco de reivindicações e manifestos,
além de saco de pancadas de todos os segmentos do cinema
brasileiro. É quase inacreditável, mas Gramado continua
mantendo seleção e premiação da categoria
de filmes de Super- 8 mm. em plena era do vídeo digital.
E diante de uma platéia lotada e incrédula, promove
uma cerimônia de premiação que dura uma hora
com superoitistas comemorando seus troféus e reclamando
mais espaço no festival. Curiosamente um do bando de superoitistas
registrava a cerimônia com uma câmera de vídeo
digital. Devia, isto sim, documentar a sua festa filmando em super-8.
O
espaço para os filmes é pouco. O festival e os turistas
da cidade preferem o desfile de atores de novelas da televisão
pelo palco do único cinema local. Ainda assim Gramado sempre
tem boas revelações. Duas mulheres esbanjaram talento
na direção de curtas: Dona Cristina Perdeu
a Memória, de Ana Luiza Azevedo (Casa de Cinema de
Porto Alegre), e Como se Morre no Cinema, de Luelane
Loiola Corrêa foram as melhores. Ana Luiza Azevedo concentrou
em 13 minutos a questão afetiva da memória, da infância
e da velhice, aproximando-se com muita ternura e emoção
do universo cinematográfico do mestre espanhol Victor Erice.
Luelane Loiola Corrêa faz homenagem ao clássico Vidas
Secas, dirigido em 1962 por Nelson Pereira dos Santos. Sua
memória afetiva dá vez a dois coadjuvantes animais
do filme original - um papagaio e um cachorro. O júri deu
a ambos os prêmios do festival.
Edifício
Máster, do mestre dos documentários Eduardo
Coutinho, revela esperanças e humanidade entre os habitantes
de um edifício superpovoado de Copacabana, no Rio de Janeiro.
É um filme para correr o circuito internacional de festivais
e acumular merecidos prêmios. Foi o grande vencedor na categoria,
destaque ao lado do prêmio especial do júri atribuído
ao já consagrado Onde a Terra Acaba (prêmio
do público na 25ª Mostra BR de Cinema - Mostra Internacional
de Cinema em São Paulo, em 2001).
Apenas
quatro longas latinos concorreram ao troféu de melhor filme
em Gramado 2002. E La Perdición de los Hombres,
do mestre mexicano Arturo Ripstein foi o óbvio vencedor
(Melhor filme de San Sebastian 2000. Dos únicos cinco longas
brasileiros candidatos aos prêmios do festival, Durval
Discos, da estreante de São Paulo Anna Muylaert ficou
com os principais prêmios, inclusive de melhor filme e direção.
É um thriller de humor negro com toques de nostalgia sobre
os tempos dos discos de vinil. A sua estréia internacional
será no próximo festival canadense de Montreal.
O segundo filme mais premiado foi Uma Onda no Ar,
do grande talento mineiro Helvécio Ratton, drama de resistência
sobre a experiência vitoriosa de um grupo de favelados que
cria uma rádio comunitária. A estréia internacional
do filme de Ratton será no próximo festival espanhol
de San Sebastian.
(20/08/2002)
Jornal da Mostra nº 129
Leon Cakoff, para o 'Jornal
da Mostra'
Leia
mais no Jornal da Mostra >> Read
more at Jornal Mostra >>
|
GRAMADO
2002
POCKET
FESTIVAL WITH THE CHARM OF THE GAUCHO LANDSCAPE
The 30th Gramado Festival for Brazilian
and Latin American Cinema ended last Sunday. Thanks
to this festival, the hills in the Brazilian south
(photo) have been discovered as a national tourist
option. The festival has also stimulated the cinema
production in Rio Grande do Sul (the southernmost
state of Brazil), internationally consecrating talents
such as the ones from Casa de Cinema de Porto Alegre.
In the empty years of Brazilian Cinema, provoked by
the crisis in Collors government, the festival
tried to survive by opening its selection to films
produced in the wide Latin languages speaking community.
One
can say that the Festival also feeds its masochist
vocation, which is to be the stage of vindications
and manifests, as well as the boxing heavy bag for
all segments of Brazilian cinema. Its almost
unbelievable, but Gramado still selects and awards
Super-8mm films in full digital video era. To an amazed
and overcrowded audience, the festival promoted an
awarding ceremony that lasted one hour with Super-8
filmmakers celebrating their trophies and requesting
more space in the festival. Curiously, one of them
was registering the ceremony with a digital video
camera. He should, indeed, document his party filming
in Super-8.
The
space for films is small. The festival and the city
tourists prefer the parade of soap opera actors through
the stage of the only local theater. Even so, Gramado
always brings good revelations. Two women exceeded
talent in short film direction: Dona Cristina
Perdeu a Memória(Dona Cristina
Lost her Memory), by Ana Luiza Azevedo (Casa
de Cinema de Porto Alegre), and Como se Morre
no Cinema (How to Die in the Movies),
by Luelane Loiola Corrêa were the best ones.
Ana Luiza Azevedo concentrated in 13 minutes the emotional
aspect of memory, childhood and old age, approaching
in a very tender and sensitive way, the cinematographic
universe of Spanish master Victor Erice. Luelane Loiola
Corrêa paid homage to the classic Vidas
Secas (Barren Lives), directed in
1962 by Nelson Pereira dos Santos. Her emotional memory
recalls two supporting animals of the original film
- a parrot and a dog. The jury granted both of them
the festival awards.
Edifício
Máster, by documentary master Eduardo
Coutinho, reveals the hopes and humanity among the
inhabitants of an overpopulated building in Copacabana,
Rio de Janeiro. Its a film to run the international
circuit of festivals and to accumulate deserved awards.
It was the great winner of the category, along with
the Special Award of the Jury granted to the already
consecrated Onde a Terra Acaba / At
the Edge of the Earth (Publics Award at
the 25th São Paulo International Film Festival,
in 2001).
Only
four Latin feature films competed for the trophy of
Best Film in Gramado 2002. And La Perdición
de Los Hombres, by Mexican master Arturo Ripstein
was the obvious winner (Best Film in San Sebastián
2000). Among the only five Brazilian candidates to
the Festivals awards, Durval Discos
/ Durval Records, Anna Muylaerts
debut feature, was granted the main awards, including
Best Film and Best Direction. Its a black humor
thriller, with a touch of nostalgia for vinyl records
times. Its international premiere will be at the upcoming
Canadian Montreal Festival. The second most awarded
film was Uma Onda no Ar, by the great
talent Helvécio Ratton, a résistance
drama about the successful experience of a group of
shanty-town inhabitants who created a community radio.
The international premiere of Rattons film will
be at the Spanish Festival of San Sebastian.
Leon
Cakoff,
for 'Jornal
da Mostra'
|
|
|
© Copyright Jornal da Mostra. Proibida a reprodução
total ou parcial dos artigos do 'Jornal da Mostra' em qualquer
meio ou suporte, sem a nossa prévia autorização.
Consultas e esclarecimentos através de jornaldamostra@mostra.org
|
|