ENTREVISTA
- PARTE 2
MEU LIVRO VIROU RESISTÊNCIA AO TOTALITARISMO,
DIZ O ESCRITOR
Antonio
Tabucchi nasceu em Pisa, Itália, em 1943. É um escritor
italiano de cultura lusitana e dimensão universal. É
também um contador de histórias para o cinema. Cinco
filmes foram feitos com base em seus livros. Por isso o 55°
Festival de Cinema de Locarno quis saber de suas relações
com o cinema, num fórum aberto ao público. Como
ficcionista Antonio Tabucchi é autor de Afirma Pereira,
Anjo negro, Sonhos de sonhos, Os três últimos dias
de Fernando Pessoa e A cabeça perdida de Damasceno Monteiro,
além de duas peças de teatro reunidas em I dialoghi
mancati. É professor de literatura portuguesa na Universidade
de Pisa e um dos maiores especialistas em Fernando Pessoa, sobre
quem escreveu vários ensaios e cuja obra traduziu para
o italiano. Apreciador também de literatura brasileira,
traduziu poemas de Carlos Drummond de Andrade e o romance Zero,
de Ignacio de Loyolla Brandão.
Tabucchi se diz um homem arcaico, rejeita o computador e não
se interessa pela rede da internet. Prefiro os furos da
rede, diz o escritor e professor universitário, responsável
pela tradução, com sua mulher, da obra de Fernando
Pessoa para o italiano. Segue a continuação da entrevista
com Antonio Tabucchi.
Jornal da Mostra - E qual é
sua relação com o cinema?
Antonio Tabucchi - Começou
com o filme de Alain Courneau Noturno Indiano, mas
sem qualquer participação minha, pois disse que
poderiam fazer o filme como quisessem. Não sei nada de
cinema, gosto muito de assisti-lo, não fazê-lo porque
não sei fazer. Quanto ao filme de Alain Tanner, Réquiem,
sobre Fernando Pessoa, existe uma explicação - eu
traduzi quase toda sua obra em italiano, minha língua natal,
quando Fernando Pessoa não era tão conhecido no
mundo, isso com Maria José de Lencastre, minha mulher.
Jornal da Mostra - E o seu atual sucesso
literário europeu como explica? Quando começou a
viver de seus livros?
Antonio Tabucchi
- Olha, eu continuo a não viver de literatura, se calhar
vou viver nos anos que ainda me ficam, mas por enquanto vivo do
meu salário de professor universitário. Tenho o
privilégio de não me considerar um escritor profissional,
posso escrever o que me apetece, porque o que o editor gosta ou
não gosta, que se possa vender ou não, isso me é
indiferente.
Jornal da Mostra - Quais livros seus
foram para o cinema?
Antonio Tabucchi - Noturno
Indiano, com direção de Alain Corneau; Afirma
Pereira, de Roberto Faenza; Rebus, de Maximo
Guglielmi; Ufia do Horizonte, de Fernando Lopes, filme
português; e Réquiem, de Alain Tanner.
Tudo é muito simples - eu conto histórias, sou um
narrador, o cinema precisa de histórias e, às vezes,
vai buscá-las na literatura. Eu não fui eu buscar
o cinema, foi o cinema que chegou a mim.
Jornal da Mostra - Afirma Pereira,
transformado em filme, fez conhecer mais sua obra...
Antonio Tabucchi - Afirma
Pereira foi publicado quando Berlusconi ganhou as eleições
pela primeira vez e, escrito dois anos antes, meu livro falava
do racismo e xenofobia que retornavam, como nos anos 30. Eu tinha
situado a história em Portugal, sob o regime salazarista.
Para mim, tratava-se de acompanhar os tormentos de consciência
do jornalista Pereira. Eu não atribuía ao relato
uma dimensão política, mas uma dimensão existencial.
Porém, com a eleição de Berlusconi, meu livro
foi adotado como uma espécie de símbolo de resistência
ao totalitarismo.
Jornal da Mostra - Tem algum livro
em preparação?
Antonio Tabucchi - Os escritores
estão sempre a escrever, fazendo anotações.
No momento, estou anotando. Se depois juntam-se num livro, isso
veremos.
Rui
Martins , para o 'Jornal
da Mostra'
(26/08/2002)
Jornal da Mostra nº 133
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ANTONIO
TABUCCHI
INTERVIEW
- PART 2
MY BOOK BECAME AN OPPOSITION TO TOTALITARISM,
SAYS WRITER
Antonio
Tabucchi was born in Pisa, Italy, in 1943. Hes
an Italian writer of Lusitanian culture and universal
dimension. Hes also a storyteller for the cinema.
Five films were based on his books. Thats why
the 55th Locarno Film Festival wanted to know more
about his relationship with cinema, in an open forum.
As a fiction writer, Antonio Tabucchi is the author
of Pereira Declares (Afirma Pereira),
Dark Angel (Anjo negro), Dreams
of Dreams (Sonhos de sonhos), The
Last Three Days of Fernando Pessoa (Os
três últimos dias de Fernando Pessoa)
and The Missing Head of Damasceno Monteiro
(A cabeça perdida de Damasceno Monteiro),
as well as two drama plays found in I dialoghi mancati.
He is a Portuguese Literature Professor at the University
of Pisa and one of the greatest experts on Fernando
Pessoa, about whom he wrote many essays about and
whose work he translated into Italian. An appreciator
of Brazilian literature as well, he has translated
Carlos Drummond de Andrades poems and the novel
Zero, by Ignacio de Loyolla Brandão.
Tabucchi considers himself an archaic man, he rejects
computers and has no interest for the internet. I
prefer the holes in the net, says the writer
and professor, responsible, in partnership with his
wife, for the translation into Italian of this piece
by Fernando Pessoa . Follows the second part of the
interview with Antonio Tabucchi.
Jornal da Mostra - And whats
your relation with cinema?
Antonio Tabucchi
- It began with the film Nocturne Indien
by Alain Corneau, but I didnt participate, I
told them they could make the film any way they wanted.
I know nothing of cinema, I really like watching,
not making though, because I dont know how.
Regarding Alain Tanners film, Requiem,
about Fernando Pessoa, there is an explanation - I
translated all his work into Italian, my mother tongue,
when Fernando Pessoa wasnt as well known to
the world, with Maria José de Lencastre, my
wife.
Jornal da Mostra - How do
you explain your current European literary success?
When did you start to live off your books?
Antonio Tabucchi
- Look, I still dont live off literature, if
possible I might do it on the years I still have,
but for now I live out of my salary as a university
professor. I have the privilege of not considering
myself a professional writer, I can write what pleases
me, because what the editor likes or doesnt,
what sells or doesnt, that is indifferent to
me.
Jornal da Mostra - Which
of your books were adapted to cinema?
Antonio Tabucchi
- Nocturne Indien, directed by Alain Corneau;
According to Pereira by Roberto Faenza;
Rebus by Massimo Guglielmi; The
Line of the Horizon by Fernando Lopes, a Portuguese
film; and Requiem, by Alain Tanner. It
is very simple - I tell stories, Im a narrator,
and cinema needs stories, and sometimes, gets it from
literature. I didnt look for cinema, it found
me.
Jornal da Mostra - According
to Pereira, made into film, enabled us to know
more of your work.
Antonio Tabucchi
- According to Pereira (Afirma Pereira)
was published when Berlusconi won the election for
the first time and, having been written two years
before, my book spoke of the returning racism and
xenophobia, just like in the 30s. For me, it
was about following the torments of journalist Pereiras
conscience. I never attributed a political dimension
to this report, but an existential one. However, with
Berlusconis election, my book was adopted as
a sort of symbol of opposition to totalitarism.
Jornal
da Mostra - Are you working on any books now?
Antonio Tabucchi
- Writers are always writing, taking notes. Right
now, Im taking notes. If they come together
in a book, that well see.
Rui
Martins , for 'Jornal
da Mostra'
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