CRÍTICO
DEVERIA SER EDUCADOR E NÃO ALGOZ
Sou
um daqueles apaixonados pelo cinema, que freqüenta as
salas 4 a 5 vezes por semana, que fica ansioso esperando os festivais
e que ama acima de tudo a possibilidade de entrar naquela sala
escura e se deliciar com os filmes exibidos. Além de tudo,
já que sou professor, procuro estimular meus alunos a irem
ao cinema e descobrir todas as possibilidades de prazer e reflexão
ocasionadas por um filme.
Parabéns
por sua crônica sobre O Príncipe [Jornal
da Mostra nº 128]. Às vezes
fico indignado com certas críticas. Acho o papel da crítica
fundamental (aliás, sempre falo para os meus alunos que
é fundamental ler as críticas antes de ver os filmes,
mas não para aceitá-las integralmente, e sim para
dialogar com elas). Mas alguns críticos (se é que
assim podem ser chamados) esquecem que tem uma responsabilidade
social e mesmo que podem destruir o esforço de um cineasta,
afastando mesmo o público menos atento. Em se tratando
de filme brasileiro, isso ainda é mais grave, em função
das dificuldades que temos de produzir nossas películas.
O crítico deveria se entender também como um educador
e não como um algoz.
Parabéns
por seu artigo, antes de tudo um alerta. Para ser crítico
de cinema não basta pronunciar meia dúzia de besteiras.
Deveria ser exigida uma formação melhor, que contemplasse
inclusive a capacidade de compreender historicamente o contexto
da obra produzida, na historia de vida do cineasta.
No
que se refere ao Príncipe, talvez Conti tenha
feito crítica tão perversa para negar que se sente
igual ao personagem, como aliás muitos de nós nos
sentimos também: um pouco sem rumo nesse mundo de valores
completamente enlouquecidos. Abaixo envio umas coisas que escrevi
sobre o filme, sem a menor pretensão de ser crítico,
apenas para continuar me deliciando com o prazer que o filme me
proporcionou.
Parabéns
ao Jornal da Mostra. Não deixo de ler uma edição
e fico agradecido por este trabalho.
Victor
Melo
CRÍTICA
DO PROFESSOR: O PRÍNCIPE É IMPERDÍVEL!
Gustavo,
depois de 20 anos na Franca, para onde foi exilado, volta ao Brasil
em virtude de problema de saúde mental de um sobrinho.
Nessa volta, Gustavo se assusta com uma cidade completamente modificada
e reencontra os amigos de seu tempo de juventude, quando dividiam
utopias e sonhos de um mundo melhor. No decorrer do desenvolvimento
do filme, Giorgetti o tempo inteiro se pergunta e nos faz perguntar:
onde foram parar nossos sonhos? Contando com belíssimas
atuações do corpo de atores e a beleza emblemática
de Bruna Lombardi (foto), Giorgetti dispara um torpedo em nossa
consciência, instigando-nos a cada minuto de película.
De
um lado, apresenta a mediocridade da fuga. Se a mentira grassa
por todos os espaços como um valor, porque então
não enlouquecer e assumir a mentira como uma verdade? De
outro lado, há os medíocres que distorcem os sentidos
originais das utopias da década de 60, se vendem ao mercado
e se envolvem com a cultura como se essa fosse uma brincadeira
de distinção. Supostamente otimistas, na verdade
são entreguistas que encontraram a saída em uma
alienação supostamente culta. Aliás, até
a cultura se mediocriza nesse quadro de superficialidade.
Enquanto
os "cultos" freqüentam as vernissages, não
percebem com sensibilidade o desgaste do tecido urbano e o aumento
da desigualdade explícita para quem coloca a cara na janela.
No meio disso ainda há os medíocres que se tornaram
amargos e os medíocres que se tornaram ainda mais extremistas,
o que também não deixa de ser uma fantasia ou mentira.
Com
uma forte dose de desesperança, Giorgetti nos instiga a
pensar que deve haver um caminho alternativo. Só não
nos aponta qual, nem tampouco dá pistas, o que faz com
que saiamos do cinema pensativos e desconfiados da forma com a
qual temos encaminhado e pretendemos encaminhar nossa vida.
Imperdível,
principalmente para aqueles que acreditam no poder da cultura
e para aqueles que entendem que o cinema é também
uma forma de encontro com a realidade.
Victor
Melo, para o Jornal da Mostra
(28/08/2002)
Jornal da Mostra nº 135
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FROM
THE READERS
A
CRITIC SHOULD BE AN EDUCATOR AND NOT AN EXECUTIONER
I am one of those cinema lovers, who goes
to the theater 4 to 5 times every week, who anxiously
waits for festivals and loves, above all, the possibility
of entering that dark room and savoring the exhibited
films. Apart from that, as I am a teacher, I try to
stimulate my students to go to the cinema and discover
all the possibilities of pleasure and reflection awakened
by a film.
Congratulations
on your chronicle about The Prince [Jornal
da Mostra nº 128]. Sometimes
I am appalled with some critics. I find the critics
role to be crucial (by the way, I always tell my students
that it is vital to read reviews before watching films,
not to systematically accept them, but to dialogue
with them). But some critics (if you can call them
that) forget that they have a social responsibility
and that they can even destroy a filmmakers
effort, by pushing away the less informed viewers.
When it comes to Brazilian cinema, which is even more
critical, considering the difficulties we have producing
our films. The critic should understand him/herself
as an educator and not an executioner.
Congratulations
on your article, an alert in the first place. To be
a cinema critic its not enough to just utter
a bunch of silliness. Special education should be
required, one that also contemplated the ability of
historically understanding the context of the work
produced, in the history of the filmmakers life.
Regarding
The Prince, perhaps Conti wrote such an
evil critic to deny that he feels just like the character,
as many of us also do: a bit adrift in this world
of completely mad values.
Congratulations
to Jornal da Mostra. I never miss any
edition and I am grateful for this work.
Victor
Melo
TEACHERS
CRITIC: THE PRINCE IS A MUST-SEE!
Gustavo,
after 20 years living in exile in France, returns
to Brazil because of his nephews mental health.
In this return, Gustavo is shocked by a completely
modified city and reencounters friends of his youth,
when they shared utopias and dreams of a better world.
As the film develops, Giorgetti keeps asking himself
and each of us: where did our dreams go? Counting
on the actors beautiful performances and Bruna
Lombardis emblematic beauty (picture), Giorgetti
shoots a torpedo into our consciousness, instigating
us each minute of the film.
On
one hand, it presents the mediocrity of escape. If
lie spreads through all spaces as a value, why not
go mad and assume lie as the truth? On the other hand,
the mediocre people who twist the original meaning
of the 60s utopias sell themselves to the market
and get involved with culture as if it were a distinct
toy. Supposedly optimists, they are in truth surrenders
that found the way out in an apparently cultured alienation.
While
the cultured attend vernissages, they
dont realize with sensitivity how worn out the
urban fabric becomes and how the explicit inequity
increases to those who are not afraid of exposing
themselves. Among that, there are still the mediocre
people who have become bitter and/or even greater
extremists, which is yet another fantasy or lie.
With
a strong dose of despair, Giorgetti instigates us
to think that there must be an alternative way. He
doesnt show us the way, though, nor does he
gives clues, what makes us leave the theater thoughtful
and suspicious of the way weve dealt and intend
to deal with our lives.
A
must-see, especially for those who believe in the
power of culture and for those who understand that
cinema is also a way of meeting reality.
Victor
Melo, for Jornal da Mostra
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