O PRÍNCIPE

UGO GIORGETTI FALA SOBRE AS “QUESTÕES QUE ATINGEM A TODOS”

Fico muito feliz e orgulhoso pelo meu filme ter motivado uma atitude muito rara no cinema nacional e certamente na própria vida nacional, ou seja, uma demonstração de coragem e franqueza como poucas vezes eu vi. Num país onde a regra é o compromisso, onde se evita constantemente tomar partido e dizer claramente as coisas, é estimulante e admirável alguém sair em público dando exatamente o nome aos bois (ou cães).

A defesa do filme em si não me surpreendeu muito pelo simples fato de que não é a primeira vez que você generosamente se pronuncia sobre o filme (os parágrafos finais do seu texto são uma das análises críticas do filme que me deram mais satisfação). O que me impressionou, além disso, porém, foram as conclusões que você tira dessa espécie de atitudes. É inteiramente verdade que desestimula a "coragem de experimentar" e "mina a identidade dos espectadores com sua própria cultura e realidade". E seguramente "é um equivoco pensar que não somos atingidos por ataques do tipo". Somos atingidos sim, e devemos confessar isso, cineastas jovens e velhos. Não confessar que se é atingido por uma crítica dessas é idiota. É como se eu negasse ter sido atingido, depois de levar uma pedrada na cabeça! E pior ainda se se tratar de um jovem cineasta ainda pouco seguro.

Sem falar, é claro, em efeitos devastadores como no caso da Embra que você evoca muito bem. Estamos, nesse momento, tentando ainda criar um instituto que substitua a Embra e ninguém menciona como ela foi extinta! E porque!

Repito que me enche de satisfação o fato de meu filme ter permitido uma manifestação dessa. E, principalmente, que ela tenha partido de outro cineasta e não da imprensa estabelecida. Embora reconhecendo que há cineastas também na imprensa oficial, é muito importante para nós a demonstração de que as questões que nos atingem não são casos isolados nem devem ser tratadas assim. Na maioria das vezes são questões que atingem a todos.

Bom, muito obrigado mais uma vez. E parabéns. Não pela defesa do filme que talvez ele não mereça, mas pela coragem, mais claramente, pelos culhões. Você é um cara que tem o cinema na alma.

Um forte abraço,

Ugo

(30/08/2002) Jornal da Mostra nº 137


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“THE PRINCE”

UGO GIORGETTI SPEAKS ABOUT “MATTERS THAT INVOLVE ALL OF US”

I am very happy and proud that my film has motivated a very rare attitude in national cinema, and surely, even in national life, that is, a demonstration of courage and straightforwardness that I have very rarely seen. In a country where the rule is commitment, where one constantly avoids taking sides and clearly stating things, it’s stimulating and admirable to see someone go out in public and let the cat out of the bag.

The defense of the film itself didn’t surprise me for the simple fact that it isn’t the first time you generously pronounce yourself on its behalf (the text’s final paragraphs are one of the critic analysis on the film that gave me the most satisfaction). What impressed me, though, other than that, were the conclusions you made out of this sort of attitude. It’s completely true that it puts off the “courage to experiment” and “mines the viewers’ identity, their own culture and reality”. And surely “it is a mistake to think that we are not affected by this sort of attack”. We are attacked indeed, and we must confess that, young or old filmmakers. Not to confess that one is attacked by such critics is stupid. It’s as if I denied having been attacked, after being hit on the head by a rock! And it’s even worst if it regards young filmmakers, yet a bit insecure.

Not mentioning, of course, the devastating effects like in the Embrafilmes’ case so well reminded by you. We are, at this very moment, still trying to create an institute that substitutes Embrafilmes and no one mentions how it got extinct! And why!

I repeat that it fills me with satisfaction the fact that my film has motivated a manifestation of this sort. And, mainly, that it was brought up by another filmmaker and not by the established press. Though recognizing that there are filmmakers also in the official press, it is very important to us a display that the matters that affect us are not isolated cases nor should be treated that way. Most times, they are matters that involve all of us.

Well, one more time, thank you very much. And congratulations. Not for defending the film, that might not deserve it, but for the courage, more clearly, for the guts. You are a guy who has the cinema in your soul.

Warm regards,
Ugo

 





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