VENEZA 2002

CINEMA ITALIANO - ESTE MITO QUE SE ESVAI


Uma coisa é viver dos mitos do passado, e que passado mais glorioso. O 59° Festival de Veneza promoveu uma retrospectiva completa do mestre Michelangelo Antonioni, com cópias restauradas, e deu um prêmio de carreira a Dino Risi. Sophia Loren abafou na abertura do festival e teve tratamento de diva, voltando a atuar no longa de estréia de seu filho Edoardo Ponti. Mas o filme mais parece um produto norte-americano. O título é inglês “Between Strangers” (foto 1), todo ele filmado no Canadá e falado em inglês. Além de Sophia Loren, o resto do elenco é prestigioso, mas nada mais tem a ver com a Itália: Gérard Depardieu, Klaus Maria Brandauer, Malcolm McDowell, Mira Sorvino e Pete Postlethewaite. É um belo filme sobre o drama paralelo de três mulheres que lutam para se livrar das amarras do domínio machista.

Dino Risi disse nas suas entrevistas em Veneza que a televisão continua matando o cinema italiano. A televisão italiana é uma das mais vulgares do mundo. Fora a enxurrada de apelos pornográficos e de programas medíocres de auditório, o que nela vemos de cinema italiano são coisas desse glorioso passado que compõem a deliciosa cultura de um povo, de Totó aos épicos do império romano fartamente produzidos na época de ouro de Cinecittà.

O que se viu de novas produções italianas na seleção de Veneza está longe de significar uma retomada. “La Forza del Passato/ The Power of the Past/ O Poder do Passado”(foto 2), de Piergiorgio Gay, foi o mais sensível filme italiano na lista da competição. Ainda assim sustentado pela doce interpretação do suíço-alemão Bruno Ganz (“Asas do Desejo”, de Wim Wenders). É um filme de suspense psicológico sobre espionagem da KGB e o passado do pai morto de um escritor de livros para adolescentes.

O segundo dos italianos em competição foi “Um Viaggio Chiamato Amore/ A Journey Called Love/ Uma Viagem Chamada Amor”, do também ator Michele Placido. Um amor dilacerado entre uma escritora burguesa e um poeta destemperado nos anos raivosos da Primeira Guerra Mundial. O duelo de dois atores italianos bastante conceituados, Laura Morante e Stefano Accorsi, ultrapassa os limites da histeria. Quem perde é a poesia. E o terceiro italiano da competição foi “Velocità Massima/ V Max/ Velocidade Máxima”, de Daniele Vicari. Estranho filme de racha de automóveis envenenados com garotas de programa como prêmio. Mau exemplo como filme que pretende atrair platéias jovens. Mais ainda porque os pilotos não usam cintos de segurança, uma lei que não pega na Itália informal.

Fora da competição, “L’Anima Gemella/ Soul Mate/ Alma Gêmea”, de Sergio Rubini, uma chanchada destemperada com folclóricos personagens do sul da Itália que parece inspirado em mini-séries da televisão brasileira. “Rosa Funzeca”, de Aurélio Grimaldi, de todos os italianos acima citados, é o que mais parece levar a sério o que o cinema italiano significou no passado. Tratando da relação de uma velha prostituta que faz de tudo para bem educar seu filho adolescente, é uma declarada homenagem ao magnífico “Mamma Roma”, de Pier Paolo Pasolini.

Mais pasoliniano ainda e radical na sua investigação citadina desconsolada é Tonino De Bernardi com o seu ‘pasticcio’ “Lei/ She/ Elas”, uma parte passada em São Paulo com atuação de Joana Curvo. Radiografia sensível de uma realidade que não existe mais nem no cinema e nem na televisão.

Leon Cakoff, para o 'Jornal da Mostra'

(06/09/2002) Jornal da Mostra nº 142


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VENICE 2002

ITALIAN CINEMA - THIS MYTH THAT VANISHES


One thing is to live off past myths, and what a glorious past. The 59th Venice Festival promoted a complete retrospective of master Michelangelo Antonioni, with restored prints, and granted a life award to Dino Risi. Sophia Loren was the sensation of the festival opening and was treated like a diva, returning to acting through her son Edoardo Ponti’s début feature. But the film almost looks like a North-American picture. The English title is “Between Strangers” (photo1), all of which shot in Canada and spoken in English. Besides Sophia Loren, the rest of the cast is prestigious but has nothing to do with Italy: Gérard Depardieu, Klaus Maria Brandauer, Malcolm McDowell, Mira Sorvino and Pete Postlethewaite. It’s a beautiful film about the parallel drama of three women who struggle to free themselves from the chains of male domination.

Dino Risi said in Venice during his interviews that television keeps destroying Italian cinema. Italian television is one of the most vulgar in the world. Beside the flood of pornographic appeals and mediocre live studio shows, what we see in it, of Italian cinema, are things from this glorious past that sum up the delightful culture of a nation, from Totó to the epics of the Roman Empire, abundantly produced during Cinecittà’s golden age.

What was seen of the new Italian productions at Venice’s selection is far from a rebirth. “La Forza del Passato / The Power of the Past”, by Piergiorgio Gay (photo 2), was the most sensitive Italian film in competition. Nonetheless sustained by the sweet interpretation of Swiss-German Bruno Ganz (“Wings of Desire”, by Win Wenders). It’s a psychological suspense about KGB intelligence service and the past of a teenage book writer’s dead father.

The second Italian film in competition was “Um Viaggio Chiamato Amore/ A Journey Called Love”, by also actor Michele Placido. The tormented love affair between a bourgeois writer and a bad-tempered poet in the angry years of First World War. The duel between two very renowned Italian actors, Laura Morante and Stefano Accorsi, surpasses the limits of hysteria. Poetry is the one to lose. And the third Italian in competition was “Velocità Massima/ V Max”, by Daniele Vicari. A strange film about souped up cars in a street race and prostitutes as awards. Bad example as a film that intends to attract young audiences. Even more so because the pilots don’t wear safety belts, a law that does not apply in informal Italy.

Out of competition, “L’Anima Gemella / Soul Mate”, by Sergio Rubini, an irrational slapstick with southern Italian folkloric characters that seems to be inspired by Brazilian TV miniseries. “Rosa Funzeca”, by Aurélio Grimaldi, of all above mentioned, is the film that takes most seriously what Italian cinema meant in the past. It looks upon the relationship of an old prostitute that does what she can to raise well her adolescent son; it is a declared homage to magnificent “Mamma Roma”, by Pier Paolo Pasolini.

Even more pasolinian and radical in its city disconsolate investigation is Tonino De Bernardi, with his ‘pasticcio’ “Lei/ She”, a part carried out in São Paulo with a performance by Joana Curvo. Sensitive radiography of a reality that does not exist neither in cinema nor in television any longer.

Leon Cakoff, from Venice, for the ‘Jornal da Mostra

(06/09/2002) Jornal da Mostra nº 142


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