VENEZA 2002

FESTIVAL DESTACA O ESCOCÊS PETER MULLAN E SEU FILME CONTRA CATÓLICOS DA IRLANDA

Foi um festival estranho e tenso esta 59ª edição de Veneza. “The Magdalene Sisters”, do escocês Peter Mullan (foto) ficou com o prêmio máximo, o Leão de Ouro. É um filme de denúncia contra o clero que praticou a escravidão em conventos da Irlanda até 1997, impunemente. À parte esta apreciação quase que unânime em Veneza não se viu traços nem mais à direita nem mais à esquerda na nova gestão do festival e da Bienal de Veneza. Tudo parece continuar igual fora os sinais cada vez mais evidentes que o poder de Silvio Berlusconi que tomou conta da Itália parece ter vindo para ficar por muito tempo.

Com a lista de prêmios na mão, fica apenas uma pergunta no ar: porque colocar filmes americanos na competição se invariavelmente os júris os desprezam? Como é possível que “Road to Perdition”, a nova obra prima de Sam Mendes saia de Veneza sem prêmio algum?

Nos últimos dias do festival, ao contrário de outros anos, a ilha do Lido, onde acontece a Mostra de Veneza, foi se esvaziando com a debandada da imprensa internacional. Reclama-se muito dos reflexos do turismo que diminuiu em todo o verão europeu depois de 11 de Setembro. A grande vaia da noite, na sala de imprensa onde se improvisava uma transmissão ao vivo, foi para o italiano Stefano Accorsi em “Um Viaggio Chiamato Amore / Uma Viagem Chamada Amor”, de Michele Plácido. Na platéia oficial, mais composta por autoridades que personalidades do cinema, consenso, é claro. Melhor atriz, a americana Julianne Moore na forte reconstituição dos anos 50, no filme “Far From Heaven”, de Todd Haynes. Ed Lachman, diretor de fotografia do mesmo filme, também foi destacado com um prêmio especial.

Outro prêmio especial para o coreano “Oásis”, de Lee Chang-dong. E outra vaia para o grande prêmio do júri - ao russo Andrei Konchalovsky pelo seu filme “La Maison de Fous”, que mistura a guerra da Chechênia com hospício. A cerimônia de premiação terminou melancolicamente com autoridades de Veneza defendendo a organização da Bienal como um patrimônio nacional da Itália. E uma pergunta final estúpida do apresentador palhaço da noite, típica de repórter de tevê, ao ‘Leão de Ouro’ Peter Mullan, sobre o significado da felicidade. Peter Mullan gentilmente foi respondendo e tentando salvar a pergunta e se saiu lembrando que o seu amor ao cinema tinha passado pela visão na infância de filmes italianos como “A Batalha de Argel”, um clássico de filme político de Gillo Pontecorvo. O tradutor da resposta em inglês de Mullan disse que o filme era de Mario Monicelli. A própria Itália vai esquecendo a sua cultura cinematográfica.

Pior ainda é que Pontecorvo esteve circulando pelo Lido todo o tempo, promovendo a sua invenção a favor do cinema latino - Prêmio Cidade de Roma - Arco-Íris Latino, este ano pela primeira vez atribuído ao farsesco “El Caballero don Quijote”, do espanhol Manoel Gutierrez Aragon.

Ao final da premiação não se confirmou o boato, até publicado no domingo pelo jornal italiano ‘La Repubblica’, dando como certa as premiações dos franceses Patrice Leconte e seus atores Johnny Hallyday e Jean Rochefort em “L’Homme de Train”. Esse ótimo thriller filosófico com um duelo psicológico entre um professor de literatura aposentado e um ladrão de banco, assim como todo o resto da participação francesa em Veneza passou à margem. Terminado o festival, com tudo que se mostrou, não se justifica a ausência de filmes latino-americanos na competição de Veneza.

 

Leon Cakoff, para o 'Jornal da Mostra'

(09/09/2002) Jornal da Mostra nº 143


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VENICE 2002

FESTIVAL HIGHLIGHTS SCOTTISH PETER MULLAN AND HIS FILM AGAINST IRISH CATHOLICS


It was a strange and tense festival this 59th Venice edition. “The Magdalene Sisters”, by Scottish Peter Mullan (photo) received the highest award, the Golden Lion. The film denounces the slavery practiced by the clergy, with impunity, in convents in Ireland until 1997. Besides this almost unanimous appreciation in Venice, one could not see any trace at the Festival and Venice Biennale’s new administration leaning more towards the right or the left-winged party. All looks just the same apart from increasing evident signs that Silvio Berlusconi’s power took over Italy and will stay for a long time.

With the award list at hand, only one question remains in the air: why include American films in competition if invariably the jury will despise them? How is it possible that “Road to Perdition”, Sam Mendes’ new masterpiece, left Venice without any prize?

On the last days of the festival, unlike other years, the Lido Island, where the Venice Festival takes place, gradually emptied with the fled of the international press. There were many complaints about the reflections on tourism, which got reduced all through the European summer after the 09.11. The greatest howl of the night, in the pressroom where a live transmission was improvised, was for Italian Stefano Accorsi in “Um Viaggio Chiamato Amore / A Journey Called Love”, by Michele Plácido. Amidst the official audience, composed more by authorities than cinema personalities, it was consensus, of course. Best Actress, American Julianne Moore at the impeccable reconstruction of the 50s, the film “Far From Heaven”, by Todd Haynes. Ed Lachman, Director of Photograph for the same film, was also pointed out with a special award.

Another special award was granted to Korean “Oasis”, by Lee Chang-dong. And yet another howl, to the jury’s award - to Russian Andrei Konchalovsky for his film “La Maison de Fous”, that mixes the war in Chechnya with a mental hospital. The award ceremony ended melancholically with Venice authorities defending the Biennale organization as a national patrimony in Italy. And a stupid final question by the clown host of the night, a typical TV reporter, to the ‘Golden Lion’ Peter Mullan, about the meaning of happiness. Peter Mullan kindly answered and, trying to save the question, ended up recalling that his love for cinema had gone through viewing, during his childhood, Italian films like “The Battle of Algiers”, a classical political film by Gillo Pontecorvo. The translator for Mullan’s answer in English said that the film was by Mario Monicelli. Italy itself is forgetting its cinematographic culture.

It’s even worst since Pontecorvo had been circulating in Lido all the time, promoting his invention in favor of Latin cinema - City of Rome award - The Latin Rainbow, this year, for the first time, granted to the farce “El Caballero don Quijote”, by Spaniard Manoel Gutierrez Aragon.

By the end of the award ceremony, the rumor hadn’t been confirmed, until it was published on Sunday by Italian newspaper ‘La Republica’, granting, for definite, awards to the French Patrice Leconte and his actors Johnny Hallyday and Jean Rochefort in “L’Homme de Train”. This great philosophical thriller that brings a psychological duel between a retired literature professor and a bank robber, just like the rest of the French participation at Venice, was put aside. The festival being over, with all it has shown, does not justify the lack of Latin-American films at the Venice competition.

Leon Cakoff, from Venice, for the ‘Jornal da Mostra

(09/09/2002) Jornal da Mostra nº 143



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