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EPISÓDIOS
SOBRE 11 DE SETEMBRO EMANAM SENTIMENTO ANTIAMERICANO
O longa de episódios “11’09’’01
- September 11” ou “Eleven Minutos, Nine Seconds,
One Frame - September 11/ Onze de Setembro, Onze Minutos, Nove
Segundos, Uma Imagem”, que teve estréia mundial no
59o Festival de Veneza, é um projeto francês para
refletir o impacto dos atentados terroristas às torres
gêmeas em Nova York e ao Pentágono que hoje completa
um ano. Toda a renda do filme será destinada à Associação
Mundial dos Mutilados de Guerra.
Por
ordem de exibição, os episódios foram dirigidos
por Samira Makhmalbaf (Irã), Claude Lelouch (França),
Youssef Chahine (Egito), Danis Tanovic (Bósnia), Idrissa
Ouedraogo (Burkina Faso), Ken Loach (Inglaterra), Alejandro González
Iñárritu (México), Amos Gitaï (Israel),
Mira Nair (Índia), Sean Penn (EUA) e Shohei Imamura (Japão).
O que prevalece na soma dos episódios é o sentimento
antiamericano e a oportunidade de se lembrar o sofrimento de muitas
outras vítimas no mundo das guerras e do terrorismo.
Samira
Makhmalbaf recorre a crianças do Afeganistão refugiadas
no Irã. Uma professora interrompe o trabalho das crianças
em uma olaria, onde se fabrica tijolos para a construção
de um abrigo contra as bombas americanas. A professora diz que
é inútil segurar as bombas com os tijolos e que
é melhor ir com ela para a escola. Na sala improvisada
de aula ela pede um minuto de silêncio para as vítimas
do World Trade Center. Ela mostra a fragilidade das próximas
vítimas.
Claude
Lelouch, com o seu estilo sentimental, mostra um casal em Nova
York, prestes a romper. Ele é guia turístico e ela
uma fotógrafa surda. Ela tem um pressentimento para que
o namorado não vá trabalhar no dia do atentado.
Mesmo atrasado, ele sai para receber seus turistas na torre. A
televisão começa a mostrar a tragédia, mas
ela não se dá conta enquanto digita no computador
uma carta de despedida. A dimensão da tragédia sem
o som fica ainda mais macabra.
Youssef
Chahine faz um episódio sobre um cineasta em crise. Ele
acaba sendo guiado à consciência pelo fantasma de
um soldado americano morto em um ataque no Oriente Médio.
Chahine faz a primeira denúncia do filme contra o império
bélico americano. “Eu estudei nos Estados Unidos
e era apaixonado por Fred Astaire e as pernas de Cyd Charisse.
Como posso aceitar meus sentimentos traídos com total impunidade?
E não pode ser um inocente quem votou em Bush”, desabafa
o cineasta egípcio.
Danis
Tanovic, Prêmio do Público da 25a Mostra de São
Paulo e Oscar de melhor filme estrangeiro por “Terra de
Ninguém”, fica em uma aldeia devastada pela guerra
fratricida da ex-Iugoslávia. Uma jovem ativista é
surpreendida pela notícia americana enquanto prepara mais
uma manifestação de protesto que sua mãe
acha inútil. Como em “Os Fuzis da Senhora Carrar”,
de Bertold Brecht, a sua mãe e todas as mães e viúvas
da aldeia resolvem aderir à manifestação
por suas vítimas depois que a notícia das torres
se espalha. A tragédia dos outros desperta a consciência
para a sua própria tragédia nesse universo abandonado
pela mídia.
Idrissa
Oudraogo fica na fantasia de um menino que pensa ver Bin Laden
e sonha com a recompensa de 25 milhões de dólares.
Seu recado “é pela diversidade cultural contra as
forças do fanatismo e da hegemonia”. Seu grupo de
meninos consegue uma câmera de vídeo para gravar
imagens do suposto terrorista. (foto1) A pretexto, registra a
pobreza de uma nação africana. “O atentado
clamou pela solidariedade internacional, mas a África também
está à espera de uma solidariedade que não
chega”, reflete Oudraogo. Bin Laden não é
capturado pelas crianças de Burkina Faso e elas voltam
à sua miserável realidade.
Ken
Loach diz que o atentado o faz pensar que a política é
algo muito importante para ser deixado aos políticos. “Um
ataque como aquele tornava-se inevitável”, ele conclui.
E se sai com outro ato de solidariedade sobre uma tragédia
com datas coincidentes: 11 de setembro de 1973, quando os EUA
promoveram a derrubada do governo legítimo de Allende.
Concentra-se na figura do refugiado político Vladimir Vega,
nas imagens e nos depoimentos do golpe chileno. Implacável,
Loach lista as milhares de vítimas provocadas por intervenções
militares americanas. E conclui: “O governo americano não
pode atuar como faz há muitos anos sem colecionar inimigos
por todas as partes do mundo.”
Alejandro
González Iñárritu, de “Amores Perros”,
é o único dos onze a desperdiçar o seu tempo.
Faz pensar nas trevas, a tela quase sempre no escuro, com poucos
flashs com imagens banidas pela mídia - a dos suicidas
que se jogaram das torres para reduzir o tempo do sofrimento.
Deixa para o espectador a delicada missão de tirar conclusões
enquanto no reino das trevas apenas ouvimos pessoas rezando.
Amos
Gitaï aplica a sua conhecida ironia para dar hierarquia às
tragédias. Uma repórter de televisão chega
ao cenário de um atentado em Jerusalém e atrapalha
os primeiros socorros. A sua vaidade é suprema. Uma boa
reportagem está acima da dor das vítimas espalhadas
pela rua. Até que explode a segunda bomba no cenário.
A sua matéria cai da transmissão ao vivo e perde
importância com as imagens da nova tragédia que chega
de Nova York.
Mira
Nair fala da intolerância dos americanos com muçulmanos.
Vê uma mãe que busca seu filho desaparecido, vira
inimiga na mídia com suspeitas de que ele era um dos terroristas
suicidas, até que o corpo do rapaz é encontrado
nos escombros de uma das torres e ganha honras de herói.
Sean
Penn, justo o americano do grupo, apresenta o mais inventivo dos
episódios. Faz das torres personagens vilãs. Pensa
nas sombras que elas faziam, tirando a luz de muitos outros apartamentos
ao longo do dia. Ernest Borgnine faz um velho solitário
que vive na sombra e conversa com velhas roupas e objetos da mulher
morta. Sem saber o que acontece do lado de fora, pensa que se
trata de um milagre quando, de repente, vê a luz inundar
o seu apartamento.
E
Shohei Imamura, o respeitável mestre, usa a amarga tristeza
de suas lembranças da Segunda Guerra Mundial. Fala-se da
bomba em Hiroshima quando um soldado volta para casa miserável,
só que rastejando e se comportando como uma serpente. A
metamorfose de Kafka sob a leitura do fanatismo militar.
Leon
Cakoff, para o 'Jornal
da Mostra'
(10/09/2002) Jornal da Mostra nº 144
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