Jornal da Mostra nº 169

MELANOMA MALIGNO
UM FILME DE HORROR COM FINAL FELIZ


Muita gente estranhou e lamentou a interrupção do 'Jornal da Mostra' ao término da 26a Mostra BR de Cinema - Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Devo a todos uma explicação e o dever de alerta com o evento que me surpreendeu. Um melanoma maligno nas costas, uma região negligenciada por protetores solares ao longo de anos de praia, mais o destemor por uma realidade que tem feito cada vez mais vítimas silenciosas pelos trópicos nos últimos anos com o aumento dos buracos na camada de ozônio. Um alerta: tudo que se diz na literatura barata e nos artigos de ocasião sobre os perigos à pele no verão deve ser levado a sério.

Diante do diagnóstico, fui recomendado por meu sogro médico-oftalmologista, Dr. Geraldo Vicente de Almeida, a procurar o oncologista (palavra tabu) Dr. Ivan Dunshee A. O. Santos, indicação reforçada pelo solidário amigo Hector Babenco. Foi marcada uma cirurgia de emergência e fiquei excitado com a experiência de uma anestesia geral, a primeira aos 54 anos de vida. Acordei sem um bom bife nas costas, mais de 25 pontos de sutura, e a extração do gânglio sentinela sob o braço esquerdo.

Onde estão os progressos da medicina diante de uma cirurgia tão pesada? Pois era muito pior um câncer de pele há dez anos. Até o início dos anos 90, explica o Dr. Ivan, o procedimento preventivo para as metástases, o perigo das células cancerígenas se espalharem pelo corpo, era extrair todos os gânglios do corpo, nas axilas, no pescoço, nas virilhas.

Uma segunda cirurgia no início de janeiro, outra anestesia geral que outra vez me enche de interrogações sobre o apagão da mente, foi para combater a micro metástase apontada no exame do gânglio sentinela extraído da primeira vez. Outros 25 pontos de sutura, não me restaram mais gânglios na axila esquerda (posso economizar em desodorante), mas também acabaram as evidências de metástases. O filme de horror teve final feliz. Depois de dois meses de dores (e pra elas não tem remédio) e o bombardeio de antibióticos, analgésicos e derivados de morfina, acabo de sair da chamada quarentena cirúrgica. Comemorei no Festival de Berlim com bons copos de 'fass' (chope).

Espero que esta experiência sirva de alerta para a próxima exposição ao sol dos nossos leitores. O pior é despertar para uma outra realidade, criminoso por parte do estado em país de baixos poderes aquisitivos como o nosso: protetor solar é caríssimo no Brasil porque é qualificado como cosmético e não remédio (que seria o certo) e paga-se altos impostos por ser considerado bem de consumo supérfluo. Vamos ver se uma nova consciência autoritária reverte este absurdo.

Texto e edição: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Tradução em Inglês: Clare Charity (clarecharity@uol.com.br)
Foto: Leon Cakoff


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MALIGNANT MELANOMA
A HORROR FILM WITH A HAPPY ENDING

A number of readers thought it strange and expressed their disappointment at the break in Jornal da Mostra issues subsequent to the 26th Mostra BR de Cinema - The São Paulo International Film Festival in São Paulo. I owe all of you an explanation and feel called upon to alert readers to an instance that caught me off guard - malignant melanoma, on my back, in an area of my body that had gone devoid of sun block over the course of years of going to the beach, undeterred by a reality that, with an increase to the extent of holes in the layer of ozone, has reaped more and more silent victims everywhere in the tropics in the last years. A warning: all that is said in cheap literature and in occasional articles about the danger to the skin in summer must be taken in earnest.

I was given such a diagnosis. My father-in-law who is a doctor and an ophthalmologist, Dr. Geraldo Vicente de Almeida, recommended that I consult an oncologist (a word that is taboo), Dr Ivan Dunshee A. O. Santos, an indication re-endorsed by my good friend Hector Babenco, whereupon arrangements were made for emergency surgery. I was expectant at the thought of a general anesthetic, the first in all of my 54 years. I came round from the anesthetic. A considerable portion had been taken away from my back, with over 25 stitches and the sentry ganglion gone from under my left arm.

Where is the progress made in medicine in the light of such radical surgery? Cancer of the skin was a good deal worse ten years ago. Up until the nineties, Dr Ivan explained, procedures for the prevention of metastasis and the danger that cancer cells might spread throughout the body, included extracting all of the ganglia in the body - from the armpits, neck, and from the groin.

A second surgical intervention early in January, with another general anesthetic that once again caused me to ponder on such a blackout of the mind, was to combat micro-metastasis that had shown up on examination of the sentry ganglion removed on the first operation. With a suture of a further 25 stitches, I was left with no ganglia in the left armpit (a saving on deodorant), but all traces of metastasis were gone - a horror film with a happy ending. After two months of pain (for which there is no remedy) and a barrage of antibiotics, painkillers, and of morphine derivatives, I have successfully emerged from surgical quarantine. I commemorated at the Berlin Festival