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JOÃO CÉSAR MONTEIRO
CINEMA PERDE O SEU GRANDE TRANSGRESSOR
O
cinema perdeu em fevereiro o seu mais irreverente transgressor, o diretor
português João César Monteiro (1939 - 2003). Segundo
Jacques Mandelbaum e Jean-Michel Frondon, em página inteira no
jornal francês 'Le Monde' (6.2.03), " Monteiro era da mesma
altura do seu compatriota Manoel de Oliveira e morreu em cena como o seu
grande irmão Molière."
Os
artigos vão além nos elogios e dizem que o oitavo longa-metragem
deixado por João César Monteiro, a obra póstuma 'Vai
e Vem", é uma verdadeira obra-prima. "Vai e Vem",
deverá ter destaque na programação do próximo
Festival de Cannes, anunciado para o período de 14 a 25 de maio.
João
César Monteiro morreu de câncer generalizado dia 3 de fevereiro,
deixando inconsolado o seu amigo e maior protetor, o produtor franco-português
Paulo Branco, "o grande cavalheiro do cinema europeu", segundo
o mesmo jornal francês. Aos poucos Paulo Branco tem reconhecidos
os seus esforços como o empreendedor que dá condições
a Manoel de Oliveira terminar um novo filme a cada ano, ou como deu a
Monteiro para rodar filmes radicais como "A Comédia de Deus"(1995),
"A Bodas de Deus" (1999) e o radical dos radicais "Branca
de Neve" (2000). Em 2002 Paulo Branco foi homenageado nos festivais
de Locarno e São Paulo (www.mostra.org).
Calam-se
agora também os seus detratores em Portugal que se mobilizavam
contra as subvenções oficiais obtidas por Paulo Branco para
o novo filme de Monteiro "Vai e Vem". Esse movimento tinha como
forte argumento o resultado na tela do penúltimo filme de Monteiro
"Branca de Neve", talvez a experiência mais provocativa
da história do cinema, sem imagens (ou duas raras fotos no final
da projeção), com a tela preta e apenas a audição
de diálogos de uma peça do escritor suíço
Robert Walser (1878 - 1956) que retoma o conto de fadas dos Irmãos
Grimm do ponto em que ele havia terminado (veja seleção
da 24ª Mostra).
Por onde o filme passou houve reações indignadas de alguns
(poucos) espectadores inconformados em assistir a um filme com a tela
em preto. Inclusive na Mostra.
Monteiro
era um fetichista declarado em seus filmes, onde também aparecia
como personagem pervertido e devasso como uma cópia urdida do Marquês
de Sade. Mostrava em seus filmes o carinho que tinha por um álbum
de pêlos púbicos femininos que colecionava com a coragem
de pedir de fato a qualquer mulher de quem se aproximava, inclusive a
grandes atrizes do cinema europeu. Não há registro de negativas
ou reações indignadas.
Em
sua curta e parcial autobiografia intitulada "A Minha Certidão"
(in Revista &ETC, Nº 8, 30/IV/1973, pag. 19), que pode ser pesquisada
na rede, uma peça demolidora, metralhadora giratória implacável,
o autodidata Monteiro revela assim a sua passagem por uma escola efetiva
de cinema:
"Em
1963, na injusta qualidade de bolsista da Fundação Calouste
Gulbenkian, parti para Londres e fim de freqüentar a London School
of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão
mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório:
é que de fato os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás,
ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram.
Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos,
as baratas e o pão integral, vulgo pão que o diabo amassou."
Texto
e edição: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Tradução em Inglês: Clare Charity (clarecharity@uol.com.br)
Foto: João
César Monteiro
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JOÃO CÉSAR MONTEIRO
MONTEIRO
WAS A FILM MAKER FAMOUS FOR TRESPASSING. hIS DEATH IS A GREAT LOSS TO
CINEMA.
Cinema
has lost its most irreverent trespasser, Portuguese Director João
César Monteiro (1939-2003). According to Jacques Mandelbaum and
Jean-Michel Frondon, in one entire page of the French newspaper, Le Monde
(of February 6), "Monteiro was of the same dimension as his compatriot
Manoel de Oliveira and died on stage as did his great brother Molière."
The
articles go beyond this in praise and state that the feature "Vai
e Vem", left by João César Monteiro, posthumously,
is a true masterpiece. "Vai e Vem" is to be awarded special
emphasis in the programming for the next Cannes Festival, announced for
May 14 through 25.
João
César Monteiro succumbed to generalized cancer on February 3, leaving
his great friend and protector, French-Portuguese producer Paulo Branco
"the great knight of European cinema", disconsolate, according
to the same French newspaper. Paulo Branco is gradually being acknowledged
in his efforts as an entrepreneur who provides the means, today, for Manoel
de Oliveira to make one new film a year or, as in the case of Monteiro,
to make polemic films such as "A Comédia de Deus" (1999)
and the most controversial of all "Branca de Neve" (2000). Paulo
Branco was awarded tribute in 2002 at the festivals of Locarno and São
Paulo (www.mostra.org).
Detractors
of Paulo Branco can now fall silent, mobilized as they were against official
subvention obtained by Paulo Branco for Monteiro's new film "Vai
e Vem". This movement had as a strong argument the results on screen
of Monteiro's last but one film "Branca de Neve", perhaps the
most provocative experience in the history of cinema, with no image at
all (or with only two scant photographs at the end of the film), with
a pitch dark screen and only the sound of dialogs from a play by Swiss
writer Robert Waiser (1878-1958) who takes up Grimms' fairy tale from
the point where it ends (see selection for the 24th Mostra). There were
indignant reactions wherever the film was shown from some (few) spectators
who could not accept the idea of watching a film with a pitch black screen,
as was the case, also, at the Mostra.
Monteiro
was a declared fetishist in his films, where he also appeared as a perverted,
depraved character, like a warped replica of the Marquis of Sade. In his
films, he showed his fondness for an album of female pubic hair he collected,
courageously asking any woman he could for contributions, including great
actresses in European cinema. There is no record of a refusal or of indignant
reactions.
In
his brief, parcial autobiography entitled "A Minha Certidão"
(in Revista &ETC, n. 8, April 30, 1973, pg. 19) (that can be perused
on the net - demolishing, implacable machine gun fire), self-taught Monteiro
tells us of his passage through what was in effect a school of cinema:
"In
1963, in the rolew, unfairly so, of a Calouste Gulbenkian Foundation scholar,
I set off for London to attend the London School of Film Technique. I
don't suppose the school has ever seen a worse student, but in this respect,
I was not to blame: the fact is the English were never born for film making.
In fact, I am not sure why the English were ever born at all. Probably
for the same reason that bedbugs, cockroaches, and whole wheat bread exist
- to have a hard time of it."
Text and editing:
Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Translation into English: Clare Charity (clarecharity@uol.com.br)
Photograph: João
César Monteiro
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