|
O
HOMEM SEM PASSADO
COMO É POSSÍVEL UM ATAQUE AO CINEMA DE KAURISMÄKI?
Leon
Cakoff, para o Jornal da Mostra
Que
bobagem é essa de dar o bonequinho dormindo (equivalente à
bola preta ou ao polegar para baixo nas avaliações críticas
de outros jornais ao redor do mundo) para um filme magnífico como
"O Homem sem Passado/ The Man Without a Past", do irreprochável
cineasta finlandês Aki Kaurismäki? Que capricho nocivo é
esse de ir contra a opinião crítica mundial que louva o
novo filme de Kaurismäki como um dos melhores filmes do ano, que
teve em Cannes 2002 o grande prêmio do júri, que teve do
seu jurado Walter Salles um grande artigo de louvores em sua coluna na
"Folha de S. Paulo", que ganhou na 26a Mostra o encanto do público,
que é capaz de despertar aos olhos de qualquer espectador os mais
nobres sentimentos de humanidade e solidariedade?
Esse
ato lesivo foi praticado pelo mesmo redator que há pouco tempo
envergonhou a nós críticos, perguntando no mesmo jornal
"O Globo" quem era "esse chato do Jean-Marie Straub",
veterano diretor radical da linguagem, no lançamento de "Gente
da Sicília" no Rio de Janeiro.
Renata
de Almeida, produtora da Mostra, tem um pensamento que realmente é
preocupante nesta pobre relação da crítica versus
público: "O perigo de uma crítica negativa sobre um
filme de consenso positivo é que essa crítica acaba queimando
a crítica em geral". Conclusão: os críticos
bem intencionados também acabam estigmatizados
como colaboradores dispensáveis e duvidosos na formação
da opinião pública. Não vamos deixar que tenham razão
os personagens centrais da maioria dos filmes americanos que tratam personagens
jornalistas secundários quase a pontapés.
Críticas
negativas, como essa contra "O Homem sem Passado", fortalecem
na mente teorias conspiratórias contra o cinema e a literatura,
vindas de veículos da imprensa mais a serviço da televisão
que de outras mídias. Nessa teoria de conspiração,
o maoismo, fica reduzido apenas a uma nefasta ideologia que nada tem de
comunista e sim que se presta a nivelar por baixo a razão humana.
E sugiro que se vá correndo ver "O Homem sem Passado"
(leia também o "Jornal da Mostra" n° 100) que aqui
ninguém é boneco de ninguém. E cinema tampouco é
circo romano.
Texto e edição: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Textos excepcionalmente traduzidos para o inglês por Adriana Caraccio
Morgan e Nicholas Morgan (english@translate.com.br)
Foto: cena do filme "O Homem sem Passado"
Leia mais
no Jornal da Mostra >> Read
more at Jornal Mostra >>
THE MAN WITHOUT A PAST
HOW
IS IT POSSIBLE THAT KAURISMÄKI'S CINEMA IS ATTACKED?
What non-sense is this thing of giving the sleeping face (an equivalent
of a black ball or a thumbs down in the critic's review of other newspapers
around the world) to such a wonderful movie such as "The Man Without
a Past", of the irrepressible Finnish director Aki Kaurismäki?
What kind of noxious caprice is this that makes someone go against the
global critical opinion that praises the new Kaurismäki's movie as
one of the best movies of the year, that won the Jury's Grand Prize in
Cannes 2002, that deserved from juror Walter Salles a big article full
of praises in his column in "Folha de S. Paulo", that so enchanted
the public at the 26th São Paulo International Film Festival and
that is capable of bringing to the eyes of any viewer the noblest of feelings
of humanity and solidarity?
This
damaging act was carried out by the same writer that some time ago embarrassed
all of us, critics, asking in the same newspaper "O Globo" who
was "that annoying Jean-Marie Straub", veteran radical director
of the language, in the launching of "Gente da Sicília"
(Sicilia!) in Rio de Janeiro.
Renata
de Almeida, producer of the São Paulo International Film Festival,
has an opinion that is really worrisome in this poor relationship between
the critic and the audience: "A negative review of a film that has
reached a positive consensus is dangerous because this review ends up
by undermining the general critique". Conclusion: the well-intentioned
critics also end up being stigmatized as doubtful and dispensable collaborators
in the formation of the public opinion. Let's not add fuel to the fire
for writers of U.S. movies that treat secondary journalists characters
as fair game.
Negative
reviews, such as this one against "The Man Without a Past",
reinforce the idea in our minds that conspiracy theories against the cinema
and literature, coming from press vehicles that serve more television
than any other form of media. In this conspiracy theory, Maoism is reduced
only to a disastrous ideology that has nothing in common with communism
and just wants to level by below the human reason. And I suggest that
everyone go quickly to see "The Man Without a Past" (read also
the "Jornal da Mostra" number 100) that here nobody serves a
puppet master. And to show that cinema is not to be thrown to the lions.
Text and editing: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Exceptionally translated into English by Adriana Caraccio Morgan e Nicholas
Morgan (english@translate.com.br)
Photograph: scene of the movie "The Man Without a Past"
Leia mais
no Jornal da Mostra >> Read
more at Jornal Mostra >>
|