Jornal da Mostra nº 174


O HOMEM SEM PASSADO


COMO É POSSÍVEL UM ATAQUE AO CINEMA DE KAURISMÄKI?

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra

Que bobagem é essa de dar o bonequinho dormindo (equivalente à bola preta ou ao polegar para baixo nas avaliações críticas de outros jornais ao redor do mundo) para um filme magnífico como "O Homem sem Passado/ The Man Without a Past", do irreprochável cineasta finlandês Aki Kaurismäki? Que capricho nocivo é esse de ir contra a opinião crítica mundial que louva o novo filme de Kaurismäki como um dos melhores filmes do ano, que teve em Cannes 2002 o grande prêmio do júri, que teve do seu jurado Walter Salles um grande artigo de louvores em sua coluna na "Folha de S. Paulo", que ganhou na 26a Mostra o encanto do público, que é capaz de despertar aos olhos de qualquer espectador os mais nobres sentimentos de humanidade e solidariedade?

Esse ato lesivo foi praticado pelo mesmo redator que há pouco tempo envergonhou a nós críticos, perguntando no mesmo jornal "O Globo" quem era "esse chato do Jean-Marie Straub", veterano diretor radical da linguagem, no lançamento de "Gente da Sicília" no Rio de Janeiro.

Renata de Almeida, produtora da Mostra, tem um pensamento que realmente é preocupante nesta pobre relação da crítica versus público: "O perigo de uma crítica negativa sobre um filme de consenso positivo é que essa crítica acaba queimando a crítica em geral". Conclusão: os críticos bem intencionados também acabam estigmatizados como colaboradores dispensáveis e duvidosos na formação da opinião pública. Não vamos deixar que tenham razão os personagens centrais da maioria dos filmes americanos que tratam personagens jornalistas secundários quase a pontapés.

Críticas negativas, como essa contra "O Homem sem Passado", fortalecem na mente teorias conspiratórias contra o cinema e a literatura, vindas de veículos da imprensa mais a serviço da televisão que de outras mídias. Nessa teoria de conspiração, o maoismo, fica reduzido apenas a uma nefasta ideologia que nada tem de comunista e sim que se presta a nivelar por baixo a razão humana. E sugiro que se vá correndo ver "O Homem sem Passado" (leia também o "Jornal da Mostra" n° 100) que aqui ninguém é boneco de ninguém. E cinema tampouco é circo romano.

Texto e edição: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Textos excepcionalmente traduzidos para o inglês por Adriana Caraccio Morgan e Nicholas Morgan (english@translate.com.br)
Foto: cena do filme "O Homem sem Passado"


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THE MAN WITHOUT A PAST

HOW IS IT POSSIBLE THAT KAURISMÄKI'S CINEMA IS ATTACKED?


What non-sense is this thing of giving the sleeping face (an equivalent of a black ball or a thumbs down in the critic's review of other newspapers around the world) to such a wonderful movie such as "The Man Without a Past", of the irrepressible Finnish director Aki Kaurismäki? What kind of noxious caprice is this that makes someone go against the global critical opinion that praises the new Kaurismäki's movie as one of the best movies of the year, that won the Jury's Grand Prize in Cannes 2002, that deserved from juror Walter Salles a big article full of praises in his column in "Folha de S. Paulo", that so enchanted the public at the 26th São Paulo International Film Festival and that is capable of bringing to the eyes of any viewer the noblest of feelings of humanity and solidarity?

This damaging act was carried out by the same writer that some time ago embarrassed all of us, critics, asking in the same newspaper "O Globo" who was "that annoying Jean-Marie Straub", veteran radical director of the language, in the launching of "Gente da Sicília" (Sicilia!) in Rio de Janeiro.

Renata de Almeida, producer of the São Paulo International Film Festival, has an opinion that is really worrisome in this poor relationship between the critic and the audience: "A negative review of a film that has reached a positive consensus is dangerous because this review ends up by undermining the general critique". Conclusion: the well-intentioned critics also end up being stigmatized as doubtful and dispensable collaborators in the formation of the public opinion. Let's not add fuel to the fire for writers of U.S. movies that treat secondary journalists characters as fair game.

Negative reviews, such as this one against "The Man Without a Past", reinforce the idea in our minds that conspiracy theories against the cinema and literature, coming from press vehicles that serve more television than any other form of media. In this conspiracy theory, Maoism is reduced only to a disastrous ideology that has nothing in common with communism and just wants to level by below the human reason. And I suggest that everyone go quickly to see "The Man Without a Past" (read also the "Jornal da Mostra" number 100) that here nobody serves a puppet master. And to show that cinema is not to be thrown to the lions.

Text and editing: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Exceptionally translated into English by Adriana Caraccio Morgan e Nicholas Morgan (english@translate.com.br)
Photograph: scene of the movie "The Man Without a Past"


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