Jornal da Mostra nº 183

" CANNES 2003 "

O AINDA INCERTO FUTURO DO EFEITO DIGITAL
Leon Cakoff, para o 'Jornal da Mostra'

O festival de Cannes foi, nos últimos anos, cenário de muito barulho (por quase nada) por parte da indústria interessada na difusão do cinema digital. Cineastas como Lars von Trier e Wim Wenders viraram garotos-propaganda da Sony no uso deslumbrado de suas câmeras digitais. George Lucas exibiu em 2002 a sua seqüência de "Guerra nas Estrelas", "O Ataque dos Clones" em versão original digital. Este ano, quase que melancolicamente, não será o "Matrix Relouded" que será visto em projeção digital, o que seria o esperado para a pretensão modernosa dos irmãos Andy e Larry Wachowski. E sim a cópia restaurada de "Tempos Modernos", a obra prima dirigida por Chaplin em 1936. O restauro, com recursos digitais de última geração, foi efetuado pela cinemateca de Bolonha.

O que falta então para que os recursos modernos do cinema digital cheguem ao público, nas salas de cinema? Falta muito investimento que não será feito em curto espaço de tempo, segundo a revista francesa L'Express em sua edição de n° 2705, que circula esta semana. A revista calcula que apenas 147 salas de cinema, sobre as 165.000 salas existentes em todo o mundo, dispõem de projetores digitais. E explica o fiasco: primeiro, o alto custo dos projetores digitais para cinema, ainda mais do que o dobro do preço dos projetores normais para filmes em película 35 mm.; segundo, o fato mais impeditivo, o de que nenhum seguimento da milionária indústria cinematográfica quer pagar o preço da 'modernização' das salas de cinema.

Apenas três salas no Brasil, sobre 1.500, têm projetores digitais, sem que encontrem um repertório de filmes disponíveis para exibir ao público. Também a França, a Meca da cinefilia, conta só com três salas de cinema em digital sobre 5.500. A revista faz as contas da mega operação, do 'business plan' para que todas as salas francesas ganhem projetores digitais: 500 milhões de euros, ou seja, a metade da receita anual de todas essas salas de cinema.

A economia, com o fim da copiagem de filmes, seria superior a mais de três vezes o custo de todos os projetores digitais para os 3.500 cinemas da França: algo em torno de 1, 65 bilhão de euros, considerando que cada cópia de um longa-metragem sai ao custo de 1 mil euros. Não vale ainda considerar que o preço dos projetores digitais caiu para mais da metade em menos de três anos. A conclusão evidente do 'L'Express' é que essa economia não deslancha porque a indústria do cinema, mesmo com todos os lucros que terá distribuindo seus filmes na mídia digital, por satélites, discos, DVD etc, por enquanto, está deixando que a conta seja feita apenas pelos exibidores. E, os circuitos de cinema, também por enquanto, não demonstram nenhum interesse em pagar esta nova conta.

Texto e edição: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Tradução para o Inglês: Hugo Casarini e Célio Faria (casarinilegendas@uol.com.br)
Foto: cena de " TEMPOS MODERNOS " de Charles Chaplin


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" CANNES 2003 "

THE UNCERTAIN FUTURE OF THE DIGITAL EFFECT
By Leon Cakoff, for 'Jornal da Mostra'

Cannes Festival has been scenario of a lot of noise (about almost nothing) the past few years, for part of the industry interested in scattering the digital cinema. Filmmakers like Lars von Trier and Wim Wenders have become the advertisement boys for Sony in the dazzling use of their digital cameras. George Lucas showed in 2002 the sequence of "Star Wars", "Attack of the Clones" in original digital version. Almost melancholically, this year won't be the "Matrix Reloaded" that will be seen in digital projection, which would be expected for the so-called up-to-date pretension of the brothers Andy and Larry Wachowski, but the restored copy of "Modern Times" the masterpiece directed by Chaplin in 1936. Bologna Cinematheque has done its restoration, with high tech resources.

What is missing then so that the modern resources of the digital cinema can get to the audiences in the screening rooms? According to the French magazine L'Express, there's a lack of investment that will not be made in a short period of time. The magazine estimates that only 147 screening rooms, out of 165,000 worldwide, have digital projectors. And it explains this blunder: first of all, there's the high costs of the cinema digital projectors, higher than twice the price of the 35mm film projectors; secondly, and even more important, there is no section in the millionaire film industry willing to pay the price for the screening rooms updating.

In Brazil, out of 1,500 screening rooms, there are only 3 with digital projectors, and they find no available number of films to show to its audience. Also in France, the so-called Mecca of cinemagoers, there are only 3 digital screening rooms out of 5,500. The magazine calculates this mega operation and the business plan so that all French screening rooms would have digital projectors: 500 million euros, that is, half the yearly income earned by all these screening rooms.

The money spared with the end of film printing would be as much as 3 times the price of all the digital projectors for the 3,500 cinemas in France - something around 1,65 billion euros, considering that each film print costs around one thousand euros. And that is without mentioning the fact of the price of digital projectors have gone down more than 50% in less during the last 3 years. L'Express obvious conclusion is that this economy doesn't launch because the film industry, even profiting a lot with the digital film distribution - through satellites, discs, DVD, etc. - leaves the bill, at the moment, to be paid only by the exhibitors. And the exhibitors, also at this moment, do not show any interest in paying these new expenses.

Text and editing: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Translation into English: Hugo Casarini and Célio Faria (casarinilegendas@uol.com.br)
Photo: scene of " MODERN TIMES " by Charles Chaplin


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