VIVA
O ESPLENDOR CINEMATOGRÁFICO DE FELLINI
Leon
Cakoff, para o 'Jornal da Mostra'
O
56° Festival de Cannes prestou homenagem ao italiano Federico
Fellini com retrospectiva completa no 10o aniversário
de sua morte. Poucos registraram esta importante homenagem.
A imprensa do maior evento mediático do planeta preferiu
correr atrás dos irmãos Andy e Larry Wachowski
e repetir como robô, pelos quatro cantos do mundo, o que
o inteligente marketing do filme queria que se dissesse sobre
o segundo filme da trilogia "Matrix".
Fellini corre perigo de ser esquecido pelas
novas gerações. Seria uma ironia do destino para
um autor sublime que povoou a nossa imaginação,
por décadas, com um precioso elemento chamado... memória.
Por iniciativa da distribuidora Mais Filmes,
com o patrocínio da Marlboro, várias cidades brasileiras
se anteciparam a esta homenagem de Cannes com um festival de
clássicos, no final de 2002. Fellini, em cópias
novas, começa agora a chegar, filme por filme, aos cinemas.
Se formos a um dicionário, veremos que
apenas duas categorias de personagens derivaram do cinema para
os léxicos. Um é o ser chapliniano. O outro, o
felliniano. Talvez desapareçam nas futuras edições
revisadas dos dicionários. Espero que não.
Mas o que perderíamos se desaparecessem?
No caso de Chaplin, a inocência necessária para
não se deixar corromper. No caso de Fellini, uma função
onírica vital, de regressão através da
fantasia para rever criticamente situações vividas
em gerações passadas. Escravos da atualidade,
soldados do estoicismo sem causa, as novas gerações
tem por defesa se imantar a tudo que salta ao futuro. Passado
seria então perda de tempo, a melancolia dos idosos.
Não é o que aprendemos ao ver
ou rever "Roma", de Fellini, um filme rodado entre
1971 e 1972 que percorre 2000 anos de história em busca
de um senso para a razão humana no desempenho das suas
coisas fisiológicas e espirituais. Não por acaso
o filme foi mutilado pela censura militar brasileira da época
de seu lançamento original.
Roma é um pretexto para a esta viagem
introspectiva. O páthos da expressão romana é
revisto no comportamento infantil-machista da sua gente que
freqüenta bordéis, que defende ideologias como o
fascismo, a clerical ou mesmo o 'power-flower' dos hippies e
da polícia sem causa que os persegue no tempo real em
que o filme estava sendo rodado.
O esplendor cinematográfico de Fellini
precisa resistir. Não pode sofrer o mesmo processo de
corrosão pelos ares do tempo como na impressionante seqüência
de "Roma" em que uma escavadeira do metrô descobre
uma câmara romana milenar e os afrescos se desmancham
assim que o ar invade o lugar. O mesmo ar dos tempos fez pó
de uma decisão autoritária da ditadura militar
brasileira que, para retribuir o apoio da igreja, eliminou uma
longa seqüência regida por Fellini e o seu igualmente
genial músico Nino Rota, em que se tem outro dos grandes
momentos de "Roma": um delirante desfile de moda clerical.
O mundo não se enxerga sem a profusão anárquica
desse universo de personagens tirados da realidade. Sem os personagens
fellinianos corremos perigo de perder nossos sensos críticos.
Texto e edição: Leon Cakoff (jornaldamostra@mostra.org)
Tradução para o Inglês: Hugo Casarini e
Célio Faria (casarinilegendas@uol.com.br)
Arte: cartaz original do relançamento de "Roma",
de Fellini, no Brasil.
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