Jornal da Mostra nº 31



BERLIM 2002: TAVERNIER E A SOBREVIVÊNCIA ARTÍSTICA EM "LAISSEZ-PASSER"



O tema é clássico. A dignidade do artista sob a tutela de regimes tiranos.Os melhores momentos para reflexão, sob o nazismo. O mestre húngaro já nos encheu os olhos com as suas reflexões em "Mephisto" e "Coronel Redl", com o suporte do seu grande ator Klaus Maria Brandauer e uma fértil imaginação entre as hierarquias dos campos militares e dos bastidores da criação artística. Agora é o grande mestre francês que discute o tema em seu novo filme "Laissez-Passer" (foto à dir.), apresentado na competição do Festival de Berlim 2002.

"Laissez-Passer" trata das condições reais de se filmar em Paris nos estúdios Continental, durante a ocupação da França pela Alemanha nazista. Bertrand Tavernier, 61, disse que o que mais queria era "repensar como viviam e trabalhavam artistas como ele numa época de ocupação e terror." O seu filme de incansáveis 170 minutos fazem ver sofrimentos, é verdade, mas o que mais guardamos é a dignidade com que sobreviviam os artistas do cinema de uma época em que dificilmente se lembra do esplendor e da criatividade. O sofrimento prima e até hoje limita o raciocínio sobre a vida ordinária de populações inteiras subjugadas e obrigadas a se adaptar ao terror e os caprichos dos invasores. Difícil resgatar vencedores nesse campo minado com tantas escalas de ressentimentos.

Tavernier também trata de resgatar nomes logo colocados nos índex dos colaboracionistas e traidores no calor patriótico que se seguiu ao final da Segunda Guerra Mundial. O foco está em dois personagens de um escalão secundário nos estúdios da Continental: Jean-Devaivre, um assistente de direção, e Jean Aurenche, um roteirista. A resistência ao nazismo é o inevitável pano de fundo. Mas o filme está mais concentrado sobre a dignidade dos sobreviventes e suas maneiras muito particulares de colaborarem com essa caótica e apaixonada resistência.

Se a primeira parte do filme está nos pequenos prazeres da adaptação dos franceses sob ocupação, a segunda tem ótimos momentos de comédia, quando Jean Aurenche leva documentos secretos para os aliados ingleses e mal consegue se explicar no interrogatório ao qual é exaustivamente submetido.

Taviernier disse ter se fascinado especialmente por este personagem porque, "ao contrário de todos os comportamentos na época, a compulsão de deixar o país, escapar do nazismo, Aurenche chegou à Inglaterra e por todo o tempo em que foi interrogado só quis saber de voltar a Paris e ao seu trabalho."

A filmografia de Bertrand Tavernier prima pela dignidade com que seus personagens devem enfrentar as adversidades. É também uma cineasta implacável com a História, infatigável nas suas pesquisas e inquietudes, lúcido e presente, preocupado com o futuro, dedicado a personagens no crepúsculo da vida como "Um Domingo no Campo" ou na infância sem assistência como em "Ça Commence Aujour'Hui".

(11/02/2002) Jornal da Mostra nº31

Leon Cakoff, de Berlim para o Jornal da Mostra



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