
O
tema é clássico. A dignidade do artista sob a tutela
de regimes tiranos.Os melhores momentos para reflexão, sob
o nazismo. O mestre húngaro já nos encheu os olhos
com as suas reflexões em "
Mephisto"
e "
Coronel
Redl", com o suporte do seu grande ator Klaus Maria Brandauer
e uma fértil imaginação entre as hierarquias
dos campos militares e dos bastidores da criação artística.
Agora é o grande mestre francês que discute o tema
em seu novo filme "Laissez-Passer" (foto à dir.),
apresentado na competição do Festival de Berlim 2002.
"Laissez-Passer"
trata das condições reais de se filmar em Paris nos
estúdios Continental, durante a ocupação da
França pela Alemanha nazista. Bertrand Tavernier, 61, disse
que o que mais queria era "repensar como viviam e trabalhavam
artistas como ele numa época de ocupação e
terror." O seu filme de incansáveis 170 minutos fazem
ver sofrimentos, é verdade, mas o que mais guardamos é
a dignidade com que sobreviviam os artistas do cinema de uma época
em que dificilmente se lembra do esplendor e da criatividade. O
sofrimento prima e até hoje limita o raciocínio sobre
a vida ordinária de populações inteiras subjugadas
e obrigadas a se adaptar ao terror e os caprichos dos invasores.
Difícil resgatar vencedores nesse campo minado com tantas
escalas de ressentimentos.
Tavernier
também trata de resgatar nomes logo colocados nos índex
dos colaboracionistas e traidores no calor patriótico que
se seguiu ao final da Segunda Guerra Mundial. O foco está
em dois personagens de um escalão secundário nos estúdios
da Continental: Jean-Devaivre, um assistente de direção,
e Jean Aurenche, um roteirista. A resistência ao nazismo é
o inevitável pano de fundo. Mas o filme está mais
concentrado sobre a dignidade dos sobreviventes e suas maneiras
muito particulares de colaborarem com essa caótica e apaixonada
resistência.
Se
a primeira parte do filme está nos pequenos prazeres da adaptação
dos franceses sob ocupação, a segunda tem ótimos
momentos de comédia, quando Jean Aurenche leva documentos
secretos para os aliados ingleses e mal consegue se explicar no
interrogatório ao qual é exaustivamente submetido.
Taviernier
disse ter se fascinado especialmente por este personagem porque,
"ao contrário de todos os comportamentos na época,
a compulsão de deixar o país, escapar do nazismo,
Aurenche chegou à Inglaterra e por todo o tempo em que foi
interrogado só quis saber de voltar a Paris e ao seu trabalho."
A
filmografia de Bertrand Tavernier prima pela dignidade com que seus
personagens devem enfrentar as adversidades. É também
uma cineasta implacável com a História, infatigável
nas suas pesquisas e inquietudes, lúcido e presente, preocupado
com o futuro, dedicado a personagens no crepúsculo da vida
como "Um Domingo no Campo" ou na infância sem assistência
como em "Ça Commence Aujour'Hui".
(11/02/2002)
Jornal da Mostra nº31
Leon Cakoff, de Berlim para o
Jornal
da Mostra