Jornal da Mostra nº 87

HOLLYWOOD BUSINESS

A SAÚDE QUE VIRA UM NEGÓCIO DE GOVERNO

O governo americano trata o assunto com seriedade ameaçadora. A notícia chegou no feriado internacional de 1º de Maio, curiosamente o dia dos trabalhadores. O USTR, órgão federal que cuida do comércio global de interesse americano, acusou o Brasil de não demonstrar firme disposição de combater a pirataria de produtos de entretenimento.

Trata-se, de fato, de um assunto de governo, quando é sabido que o cinema baseado em Hollywood é a indústria número um dos EUA, seguida da indústria de armamentos. É fácil conjecturar que a indústria N° 1 glamouriza cordialmente os produtores da indústria N° 2 em grande parte de seus filmes.

Quem por exemplo, em todo o mundo, já não está infectado pela compulsão de assistir "O Homem-Aranha/ Spider-Man" (foto) ? O filme de Sam Raimi acumulou neste último fim-de-semana nos cinemas americanos a impressionante cifra de US$ 114 milhões. Foi a melhor estréia da semana, quando a décima melhor estréia foi "Hollywood Ending", de Woody Allen, com US$ 2.2 milhões.

Esta fabulosa indústria que na origem era chamada de caça-níqueis faturou em 2001 a soma astronômica de U$791.2 bilhões para a economia norte-americana, de acordo com o 'International Intellectual Property Alliance'. Inclui-se nesta soma todos os demais componentes das indústrias do copyrights em música e televisão, assim como softwares de computadores, DVDs e impressos ligados ao entretenimento. Segundo o mesmo estudo, trata-se de um faturamento ainda mais veloz e cumulativo do que outras indústrias líderes da economia americana como da aviação, dos automóveis e do aço. Isto significou ainda emprego para oito milhões de trabalhadores, algo em torno de 6% da mão-de-obra americana. É compreensível que não tratar bem estes produtos em outros países significa retaliações comerciais certas.

Enquanto o governo americano pede mais medidas contra a pirataria, o governo brasileiro, num verdadeiro comportamento de 'Banana Republic', fez com que o presidente e depois o vice-presidente da república abrissem suas agendas para receber o ator Morgan Freeman que aqui estava apenas para promover o novo filme em que atuava "Crimes em Primeiro Grau/ High Crimes", de Carl Franklin.

Em nível diplomático boa foi a resposta dada por Everardo Maciel, Secretário da Receita Federal do Brasil, para o jornal 'Folha de S. Paulo' do mesmo dia 1° de maio. Ele lembrou que o Brasil destruiu recentemente 680 toneladas de produtos pirateados e que 10 toneladas do total apreendido haviam sido embarcados diretamente do porto de Nova York.


DOS LEITORES

Cakoff,
Admiro muito o seu trabalho, mas devo ser sincero e direto o suficiente para repugnar essa edição 86 do seu tão interessante Jornal. Levantar essa suspeita me parece muito pouco baseado em provas. Não tenho procuração para defender o Moretti nem quero fazê-lo, mas associar assim dois fatos, mesmo que haja a conexão, me parece um tanto leviano para o trabalho de qualidade que você vem fazendo.
No mais, não sei se sou segundo escalão, mas também não gostei nada do filme, escrevi sobre ele dizendo o que me incomodava. Muito mais preocupante me parecem os passos dados pelos produtores do filme de Waltinho para conseguir uma indicação ao Oscar. Mas sobre isso até o Artur Xexéo já falou, não vou me repetir.
Um abraço de um admirador,
Ruy Gardnier

Resposta: Agradeço pela atenção. A questão tratada na edição em referência teve o meu testemunho na véspera da ocorrência, envolvendo a equipe de Moretti. Preservo um direito jornalístico para não prejudicar as fontes.

 

(07/05/2002) Jornal da Mostra nº 87

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra


HOLLYWOOD BUSINESS

HEALTH THAT BECOMES A GOVERNMENT MATTER

"The American government deals with the subject with threatening seriousness. The news came on the international holiday, on May 1, curiously Labor Day. USTR, federal organ that is in charge of the American interests in global trade, accused Brazil of not showing a firm disposition to fight entertainment products piracy.

It is, in fact, a government business, when it is known that Hollywood-based cinema is the Number 1 industry in the USA, followed by the armaments industry. It is easy to conjecture that industry number 1 cordially glamorizes industry number 2 producers in a big share of its movies.

Who, for example, in the whole world, is still not infected by the compulsion of seeing "Spider-Man"? Sam Raimi's film accumulated last weekend in American theaters the impressive US$ 114 million. It was the best opening of the week, when the tenth best opening was "Hollywood Ending", by Woody Allen, with US$ 2.2 million.

This fabulous industry that in its origin was called nickelodeon made in 2001 the astronomic amount of US$791.2 billion for the American economy, according to 'International Intellectual Property Alliance'. Including in this amount all the music and television copyrights, as well as computer softwares, DVDs and printed material. According to the same study, it is an income faster and more increasing than other leading American industries, such as aviation, cars and steel. That meant also jobs to 8 million workers, about 6% of the American workforce. It is understandable that other countries not taking good care of these products surely mean commercial retaliation.

While the American government asks for more measures against piracy, Brazilian government, in a true 'Banana Republic' behavior, made the president, and then the vice president, open their agendas to meet the actor Morgan Freeman, who was here only to promote the new film he is starring, "High Crimes", by Carl Franklin.

On a diplomatic level, the good answer was given by Everardo Maciel, the Secretary of the Federal Department of Treasury, for the newspaper 'Folha de S. Paulo' on the same May 1. He reminded that Brazil recently destroyed 680 tons of pirate products and that 10 tons out of this total had come directly from the New York port.

FROM THE READERS

Cakoff,
I admire your work very much, but I have to be sincere and straightforward enough to repel edition #86 of you most interesting Jornal. Raising this suspicion seems to me very scarcely based on proofs. I don't hold an authorization to defend Moretti and neither I want to do it, but to associate two facts like this seem quite light comparing to the quality work you have been making.
Moreover, I don't know if I am second line, but I didn't like the film at all either, and wrote about it saying what bothered me. Much more concerning seem to me the steps taken by the Salles' production to get a nomination for the Oscar. But about that even Artur Xexéo has written, I'm not going to repeat myself.
From an admirer,
Ruy Gardnier

Answer: I appreciate the attention. The subject in the referred edition was witnessed by me on the happening's eve, involving Moretti's staff. I keep a journalistic right not to harm the sources.

 

Leon Cakoff, for 'Jornal da Mostra'

Leia mais no Jornal da Mostra >>
      Read more at Jornal Mostra >>