Jornal da Mostra
   
Jornal da Mostra nº 93

CANNES 2002

"KEDMA", DE AMOS GITAÏ, FAZ DE ISRAEL UM ETERNO PESADELO

"Kedma" é o nome de um cargueiro que em maio de 1948 transporta sobreviventes do Holocausto até a costa da Palestina. Assim que esses infelizes desembarcam com todos os seus traumas e sofrimentos sob a perseguição nazista e mesmo em seus países de origem como a Polônia, começa um novo pesadelo. O fogo cruzado entre as tropas britânicas e os palestinos expulsos de suas terras.

Amos Gitaï é o mais crítico cineasta israelense e não é de hoje. Seus filmes provocam a consciência e são implacáveis com os erros cometidos também pelo seu povo. Mas não se trata de um cineasta que faz concessões para ser facilmente compreendido. Tem seu estilo e que estilo! Sua narrativa progride em elipses e seqüências aparentemente sem sentido, mas de pura hipnose.

Seus recados políticos, estes sim, vêm como pancadas, quando menos se espera de ação. A construção narrativa é repetida à perfeição neste novo "Kedma", o primeiro longa da competição visto na última quarta em Cannes.

Grande parte do filme mostra os personagens do holocausto narrando suas tragédias particulares. Outra grande parte do filme mostra o fogo cruzado e o massacre dos dois lados do conflito nascente. Um inferno que se perpetua e faz sofrimentos até hoje na região.

Do lado palestino, Gitaï dá voz apenas a um personagem que brada que seu povo lá vai ficar com um muro indestrutível e que gerações de jovens se seguirão para lutar por seus direitos.

Do lado judeu, Gitaï também dá voz ao desespero, fazendo o sobrevivente de um massacre gritar que o seu povo faz para ser odiado e perseguido ao longo dos séculos. Num momento em que Israel lança de novo todas as suas forças contra os assentamentos palestinos, o filme de Gitaï é visto como um ato de coragem e uma voz dissonante contra o consenso da guerra.



(17/05/2002) Jornal da Mostra nº 93

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra


CANNES 2002

"KEDMA", BY AMOS GITAÏ, MAKES OF ISRAEL AN ETERNAL NIGHTMARE

"Kedma" is the name of a cargo ship that in May 1948 transports survivors of the Holocaust to the Palestine shores. As soon as the poor souls land with all their traumas and suffering under the nazi persecution even in their original countries, as Poland, a new nightmare starts. Crossfire between the British troops and the Palestinians that were expelled from their lands.

Amos Gitaï is the most critical Israeli filmmaker and it is not a new thing. His films provoke consciousness and are implacable with the mistakes made also by his people. But he is not a filmmaker who opens concessions to be easily understood. He has style, and what a style! His narration progresses in ellipses and apparently senseless sequences, but that are pure hypnosis.

His political messages, these for sure, come as a blow, when action is least expected. The construction of the narrative is repeated to perfection in this new "Kedma", the first feature in the competition seen last Wednesday in Cannes.

A great part of the movie shows the holocaust characters narrating their private tragedies. Another great part shows the crossfire and the massacre on both sides of the new conflict. A hell that perpetrates itself and brings suffering until today in the area.

On the Palestinian side, Gitaï gives voice to only one character, who shouts that his people will stay there with an unbreakable wall and that generations of youngsters will follow to fight for their rights.

On the Jewish side, Gitaï also gives voice to despair, making the survivor of a massacre scream what his people does to be hated and persecuted along the centuries. At a moment when Israel sends again all its forces against the Palestinian settlings, Gitaï's movie is seen as a courage act and an out-of-key voice against war's consensus.

 

Leon Cakoff, for 'Jornal da Mostra'

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