Jornal da Mostra nº 95

CANNES 2002

OS BRASILEIROS FAZEM BONITO SOBRE NOSSAS MAZELAS

"Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e Katia Lund, foi apresentado na seleção oficial, mas fora de competição. Nem poderia ser diferente pois o seu produtor, o cineasta Walter Salles, é um dos jurados do festival. Trata-se de um filme choque que já toma propulsão para uma boa carreira internacional. Está preparada para isso com as alianças que tem: Miramax nos Estados Unidos e Wild Bunch (Canal +) na França. Será um dos sucessos do ano e passou em Cannes pelo crivo da crítica internacional e dos diretores dos principais festivais internacionais com esfuziantes elogios.

A Cidade de Deus foi uma criação oficial nos anos 60 que confinou em um gueto toda uma população pobre do Rio de Janeiro. Abandonado à própria sorte, o conjunto habitacional (e o povo), sem nenhuma infra-estrutura, virou uma das mais explosivas favelas ao longo das décadas seguintes.

O filme emprega com precisão a linguagem publicitária. Leitura dinâmica, cortes irregulares, montagem com imagens saltadas, cores distorcidas, ângulos quebrados. Não é um vídeo-clip, é mesmo um golpe na consciência. Toda esta linguagem moderna se presta a seguir a carreira da droga nos anos 70, do glamour de um baseado na praia ao tráfico violento da cocaína e de armamentos pesados; da formação de quadrilhas e de legiões de viciados.

"MADAME SATÃ"

Outro bom filme brasileiro, da mesma produtora dos irmãos Salles, Walter e João, também em Cannes, na seção 'Um Certain Regard', foi a revelação de "Madame Satã", de Kare Aïnouz, tema de um antigo filme de Antonio Carlos Fontoura. Igualmente atrevido na sua linguagem, recria a boemia carioca na Lapa das primeiras décadas do século 20 e segue os passos violentos do personagem real João Francisco dos Santos. Madame Satã, a despeito do seu prontuário policial com dezenas de assassinatos, reinou seu homossexualismo e fez dele marca registrada em espetáculos de travesti e de carnaval.

"JE T'AIME, MOI NON PLUS"

A atriz portuguesa-francesa Maria de Medeiros, diretora de "Capitães de Abril" está em Cannes este ano com credencial de jornalista. Ela aproveita as presenças ilustres no festival para gravar em digital um novo filme - o documentário "Je t'aime, moi non Plus", sobre o que passa pela cabeça de celebridades e de críticos no desafio de revelar novos filmes e idéias. Na foto vemos Maria de Medeiros entrevistando o cineasta italiano Tonino de Bernardi, conhecido pelas platéias da Mostra por seus filmes radicais sobre o bas-fonds do sul da Itália. Nosso querido cineasta Carlos Reichenbach acha que Tonino de Bernardi é um dos gênios da moderna linguagem do cinema contemporâneo.


(21/05/2002) Jornal da Mostra nº 95

Leon Cakoff, para o Jornal da Mostra


CANNES 2002

BRAZILIANS DO A BEAUTIFUL JOB ABOUT OUR BLEMISHES

"Cidade de Deus", by Fernando Meirelles and Katia Lund, was shown at the official selection, but out of competition. It couldn't be different, for its producer, the filmmaker Walter Salles, is one of the jurors at the festival. It is a shocking film already being propelled to a good international career. It is ready for it with the alliances it has: Miramax in the United States and Wild Bunch (Canal +) in France. It will be one of the successes of the year and passed in Cannes by the sieve of the international critics and of the directors of the main international festivals with overpowering compliments.

Cidade de Deus (God's Town) was an official creation of the 60's which confined in a ghetto all of a poor population of Rio de Janeiro. Abandoned to its own fate, the housing group (and the people), with no infrastructure, became one of the most explosive slums in the following decades.

The film makes a very precise use of advertisement language. Dynamic reading, irregular cuts, editing with pop-up images, distorted colors, broken angles. It's not a video clip, it is a real blow in conscience. All this modern language follows the career of the drugs of the 70's, from the glamour of a joint at the beach to violent cocaine and heavy armor traffic; from the formation of gangs and of legions of addicts.

"MADAME SATÃ"

Another good Brazilian film, from the same producer of the Salles brothers, Walter and João, also in Cannes, at the section 'Um Certain Regard', was the revelation of "Madame Satã", by Kare Aïnouz, theme of an old movie by Antonio Carlos Fontoura. Equally daring in its language, it recreates bohemian life in Rio in the first decades of the 20th century, and follows the violent steps of the actual character João Francisco dos Santos. Madame Satã, despite his police records featuring dozens of murders, reined his homosexuality and made of it his trademark in transvestite and carnival shows.

"JE T'AIME, MOI NON PLUS"

The Portuguese-French actress Maria de Medeiros, who directed "Capitães de Abril" is in Cannes this year with a journalist accreditation. She takes advantage of the distinguished presences at the festival to digitally record a new film - the documentary "Je t'aime, moi non Plus", about what comes to the mind of celebrities and critics in the challenge of revealing new films and ideas. In the picture we see Maria de Medeiros interviewing the Italian filmmaker Tonino de Bernardi, known by the São Paulo IFF audience for his radical films about the bas-fonds in southern Italy. Our dear Brazilian filmmaker Carlos Reichenbach thinks Tonino de Bernardi is one of the geniuses of the modern language of contemporary cinema.

 

Leon Cakoff, for 'Jornal da Mostra'

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